Por Eça de Queirós (1888)
Lenta, e passando as mãos no rosto Maria erguia-se - mas para cahir logo aos pés de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe custava então esse momento de separação! Para que havia de ser assim? Parecia tão pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda a noite, sósinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas carícias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos, trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus labios cançados. Era Niniche que os fazia sahir por fim trotando impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaçando ladrar.
Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietação. Que pensaria miss Sarah d'esta sésta assim enclausurada, sem um rumor,
com a janella do pavilhão cerrada? Melanie, desde pequena ao serviço de Maria, era uma confidente: o bom Domingos, um imbecil, não contava: mas miss Sarah?... Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar depois á mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bandós virginaes... Está claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no Royal Mail para Southampton! Rosa não a lamentaria, Rosa não lhe tinha affeição. Mas, emfim, era tão séria, admirava tanto a senhora! Ella não gostava de perder a admiração d'uma rapariga tão séria. E assim decidiram despedir miss Sarah, régiamente paga, e substituil-a, mais tarde, em Italia, por uma governante allemã, para quem elles fossem como casados, «Monsieur et Madame...»
Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa, foi crescendo n'elles. Não lhes bastava já essa curta manhã no divan com os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em redor: appeteciam o longo contentamento
d'uma longa noite, quando os seus braços se podessem enlaçar sem encontrar o estofo dos vestidos, e tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem facil! A sala de tapeçarias, communicando com a alcova de Maria, abriu sobre o jardim por uma porta envidraçada; a governante, os criados, subiam ás dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia profundamente; Carlos tinha uma chave do portão; e o unico cão, Niniche, era o confidente fiel dos seus beijos...
Maria desejava essa noite tão ardentemente como elle. Uma tarde ao escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos essa dupla chave - que Carlos já promettia mandar dourar: e elle ficou surprehendido ao vêr que o velho portão, que ouvira sempre ranger abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso.
Veio n'essa mesma noite - tendo deixado na villa para o levar ao amanhecer a caleche do Mulato, um batedor discreto, que elle cevava de gorgetas. O céo, molle e abafado, não tinha uma estrella; e sobre o mar lampejava a espaços, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma posse tão desejada, uma melancolia, cerrada de anciedade, que
vagamente o acobardava. Abriu quasi a tremer o portão: e mal déra alguns passos estacou,
ouvindo ao fundo Niniche ladrar furiosamente. Mas tudo emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roupão de rendas, junto da porta envidraçada, suffocando quasi entre os braços Niniche que
ainda rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado: e não quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus, com Niniche que aquietára e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma infinita mancha de tinta; só lá em baixo, perdida e mortiça, surdia da treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na sombra.
- Porque não havemos de partir já para a Italia? perguntou ella de repente, procurando a mão de Carlos. Se tem de ser, porque não ha de ser já?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos!
- Sustos de que, meu amor? Estamos aqui tão seguros como na Italia, como na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize tu um dia, marca um dia!
Ella não respondeu, deixando cahir dôcemente a cabeça sobre o hombro de Carlos. Elle acrescentou, devagar:
- Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia, vêr o avô...
Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escuridão como recebendo d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem.
- Tu tens Santa Olavia, tens teu avô, tens os teus amigos... Eu não tenho ninguem!
Carlos estreitou-a a si, enternecido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.