Por Eça de Queirós (1875)
- Morta! exclamou Amaro.
- Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou enfim a matrona.
Amaro tombou para os pés da cama como morto também.
A Dionísia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face de água, de vinagre. Ele recuperou-se um pouco, muito pálido; afastou-as com a mão, sem falar; e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, num choro desesperado, - enquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo à cozinha.
- Parece que tinha muita amizade à menina, começou a Escolástica, falando baixo como na casa dum moribundo.
- Costume de ir por lá. Foi hóspede tanto tempo... Ai, eram como irmãos... - disse a Dionísia, ainda chorosa.
Falaram então de doenças de coração - porque a Dionísia contara à Escolástica que a pobre menina tinha morrido dum aneurisma rebentado. A Escolástica também sofria do coração; mas nela eram flatos, dos maus tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz também!
- Vossemecê toma uma gotinha de café, Sra. Dionísia?
- Olhe, a falar a verdade, Sra. Escolástica, tomava uma gotinha de jeropiga...
A Escolástica correu à taberna ao fim da rua, trouxe a jeropiga num copo de quartilho debaixo do avental; e ambas à mesa, uma molhando sopas no café, outra escorropichando o copo, concordavam, com suspiros, que neste mundo tudo eram sustos e lágrimas.
Deram onze horas; e a Escolástica pensava em levar um caldo ao senhor pároco, quando ele chamou de dentro. Estava de chapéu alto, com o casaco abotoado, os olhos vermelhos como carvões...
- Escolástica, vá a correr ao Cruz que me mande um cavalo... Mas depressa.
Chamou então a Dionísia: e sentado ao pé dela, quase contra os joelhos da mulher, com a face rígida e lívida como um mármore, escutou em silêncio a história da noite - as convulsões de repente, tão fortes que ela, a Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as prostrações em que caía! depois a ansiedade da asfixia que a fazia tão roxa como a túnica duma imagem...
Mas o moço do Cruz chegara com o cavalo. Amaro tirou duma gaveta, de entre roupa branca, um pequeno crucifixo, e deu-o à Dionísia que ia voltar à Ricoça para ajudar a amortalhar a menina.
- Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-mo ela dado...
Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a galope. Não chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol de Dezembro fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.
Quando chegou ao pé do poço entulhado, donde se avistava a casa da Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho de ovelhas que tomavam o caminho; e o pastor, com uma pele de cobra ao ombro e a borracha a tiracolo, fez-lhe lembrar de repente Feirão, toda a vida passada, que lhe voltava por fragmentos bruscos - aquelas paisagens afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joana rindo estupidamente dependurada da corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira, com o abade, defronte da chaminé, onde a lenha verde estalava; os longos dias em que se desesperava na tristeza da residência, vendo fora sem cessar cair a neve... E veio-lhe um desejo ansioso dessas solidões da serra, dessa existência de lobo, longe dos homens e das cidades, sepultado lá com a sua paixão.
A porta de Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar, atirando a voz por cima do telhado dos currais, para o pátio, onde sentia cacarejar os galos. Ninguém respondeu. Seguiu então pelo caminho da aldeia, levando a égua pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher obesa fazia meia, sentada à porta. Dentro, no escuro da baiúca, dois homens com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas numa bisca renhida; e um rapazola duma amarelidão de sezões, com um lenço amarrado na cabeça, olhava-lhes o jogo tristemente.
A mulher tinha justamente visto passar a Sra. Carlota, que até parara a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Micaela, ao adro. Chamou para dentro; uma rapariguita vesga apareceu detrás da sombra das pipas.
- Corre, vai à Micaela, dize à Sra. Carlota que está aqui um senhor da cidade.
Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado numa pedra, com o seu cavalo pela rédea. Mas aquela casa fechada e muda aterrava-o. Foi pôr o ouvido à fechadura, na esperança de ouvir um choro, uma rabugem de criança. Dentro pesava um silêncio de caverna abandonada. Mas tranqüilizava-o a idéia que a Carlota teria levado a criança consigo, para a Micaela. Devia realmente ter perguntado à mulher na taberna, se a Carlota trazia uma criança ao colo... E olhava a casa bem caiada, com a sua janela em cima que tinha uma cortininha de cassa, um luxo tão raro naquelas freguesias pobres; recordava a boa ordem, o escarolado da louça da cozinha... Decerto, o pequerrucho devia ter também um berço asseado...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.