Por Eça de Queirós (1888)
- Então é um amuo? Porquê?
Carlos não respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braço.
- Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde, tenha a coragem de dizer o que é! Sim, ella tinha razão... Era uma cobardia, era uma indignidade, continuar alli, gôchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.
- Pois bem, ahi está. Eu entendi que as nossas relações deviam ser alteradas...
E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.
- Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado, que não podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...
E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas, através do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligação? Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que, envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na banalidade d'uma união quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra, n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a perceber a sua affeição. E havia por acaso nada mais horroroso, para quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o publico conhece, até os cocheiros de praça? Não... O bom senso, o bom gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separação. Ella mesmo mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupção d'um habito dôce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir feliz. Fôra por isso que não tivera a coragem de lhe escrever... Emfim deviam ser fortes, e não se vêrem pelo menos durante alguns mezes... Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietação, tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura.
Calou-se; e então, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do coupé, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu véo, estara chorando baixo.
Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com um chôro lento, que parecia não dever findar. E Carlos só achava esta palavra banal e desenxabida:
- Que tolice, que tolice!
Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella noite de verão e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente entre as arvores. Ella continuava a chorar.
Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, começou a commovel-o; e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella não reter essas lagrimas infindaveis que laceravam o seu coração... E elle que estava tão tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma deliciosa lassidão!
Tomou-lhe a mão, querendo calmal-a, apiedado, e já impaciente.
- Realmente não tem razão. É absurdo... Tudo isto é para seu bem...
Ella leve emfim um movimemto, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente por entre longos soluços... E de repente, n'um arranque de paixão, atirou-lhe os braços ao pescoço, prendendo-se a elle com desespero, esmagando-o contra o seu seio.
- Oh meu amor, não me deixes, não me deixes! Se tu soubesses! És a única felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo, vida, honra,tudo! tudo!...
Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se, sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como nú, subir-lhe para os joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos sôfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um momento ficaram assim - Carlos immovel, ella cahida sobre elle e arquejando.
Mas a tipoia não continuava. Então Carlos desprendeu um braço, desceu o vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem obedecendo á ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera á porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentação de descer, acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:
- Outra vez ao Aterro, anda sempre!...
A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de novo as pedras da calçada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais suavemente, desceram a rampa de Santos.
Ella recomeçára os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia só uma fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que ella o arrancára para o torturar com estas recriminações, estes
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.