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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros sintomas de razão, continuava o doutor, quando se torna necessário que ele tenha, para o distinguir dos animais, uma noção de si mesmo e do Universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis anos que não sabe ainda o bê-a-bá tem uma ciência mais vasta, mais certa, que as reais academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o Universo e os seus sistemas planetários; como apareceu na Terra a criação; como se sucederam as raças; como passaram as revoluções geológicas do globo; como se formaram as línguas; como se inventou a escrita... Sabe tudo: possui completa e imutável a regra para dirigir todas as ações e formar todos os juízos; tem mesmo a certeza de todos os mistérios; ainda que seja míope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade dos céus e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espetáculo, o que lhe há-de suceder depois de morrer... Não há problema que não decida... E quando a Igreja tem feito deste marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a ler... O que eu pergunto é: para quê?

A indignação tinha emudecido o abade.

- Diga lá, abade, para que os mandam os senhores ensinar a ler? Toda a ciência universal, o res scibilis, está no Catecismo: é meter-lho na memória, e o rapaz possui logo a ciência e consciência de tudo... Sabe tanto como Deus... De fato, é Deus mesmo.

O abade pulou.

- Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são chalaças à Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais de alto...

- Como chalaças, abade? Tome um exemplo: a formação das línguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...

Mas a porta da sala abriu-se, e apareceu a Dionísia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto de Amélia; e agora a matrona falava-lhe sempre encolhida de terror.

- Senhor doutor, disse ela no silêncio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.

- E então? A criança levaram-na, não?

- A criança levaram-na... disse a Dionísia.

- Bem, acabou-se...

Dionísia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.

- Ouça lá, diga-lhe que a criança vem amanhã... Que amanhã sem falta lha trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abade dá licença... Que durma, que sossegue.

A Dionísia retirou-se. Mas a controvérsia não recomeçou: diante daquela mãe que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das línguas. O abade, sobretudo, parecia comovido. Mas o doutor não tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquelas as conseqüências da situação do padre na sociedade...

O abade baixou os olhos, ocupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre naquela história infeliz.

O doutor, então, segundo a sua idéia, discursou contra a preparação e educação eclesiástica.

- Aí tem o abade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistência às mais justas solicitações da natureza, e resistência aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é criar um monstro que há-de passar a sua desgraçada existência numa batalha desesperada contra os dois fatos irresistíveis do Universo - a força da Matéria e a força da Razão!

- Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abade.

- Estou a dizer a verdade. Em que consiste a educação dum sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a supressão violenta dos sentimentos mais naturais. Secundo: em evitar todo o conhecimento e toda a idéia que seja capaz de abalar a fé católica; isto é, a supressão forçada do espírito de indagação e de exame, portanto de toda a ciência real e humana...

O abade erguera-se, ferido duma piedosa indignação:

- Pois o senhor nega à Igreja a ciência?

- Jesus, meu caro abade, continuou tranqüilamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discípulos, o ilustre S. Paulo representaram em parábolas, em epístolas, num prodigioso fluxo labial, que as produções do espírito humano eram inúteis, pueris, e sobretudo perniciosas...

O abade passeava pela sala, indo contra um e outro móvel como um boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação daquelas blasfêmias: não se conteve, gritou:

- O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe humildemente perdão... O senhor fazme cair em pecado mortal... Mas isso não é discutir... Isso é falar com a leviandade dum jornalista...

Lançou-se então com calor numa dissertação sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma filosofia criada pelos santos padres...

- Leia S. Basílio! exclamou. Lá verá o que ele diz dos estudos dos autores profanos, que são a melhor preparação para os estudos sagrados! Leia a História dos mosteiros na meia-idade! Era lá que estava a ciência, a filosofia...

(continua...)

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