Por Eça de Queirós (1875)
Mas que fazer, então? Não tinha tempo de correr aos Poiais e acordar a outra ama... A Dionísia não tinha leite... Não o podia levar para a cidade... Oh! que desejo furioso de bater àquela porta da quinta, precipitar-se para o quarto de Amélia, meter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado, e todos três ficarem ali como no conchego dum céu! Mas quê, era padre! Maldita fosse a religião que assim o esmagava!
De dentro do embrulho saiu um gemido. Correu então para o casebre - quase esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.
- Aí está, disse ele. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se passou não vale... É para o criar! é para viver. Você tem a sua fortuna...
Trate dele!...
- Não tem dúvida, não tem dúvida, dizia a mulher apressada.
- Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.
- Vai bem, senhor, vai bem.
- Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Há-de levar o capote! Não quero que morra de frio! Atirou-lho aos ombros com força, traçando-lho sobre o peito, agasalhando a criança; - e a mulher já enfastiada meteu rapidamente pela estrada.
Amaro ficou ali plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os seus nervos, depois daquele choque, se relaxaram numa fraqueza de mulher sensível - e rompeu a chorar.
Muito tempo rondou a casa. Mas ela permanecia na mesma escuridão, naquele silêncio que o
aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.
•••
A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouveia ceava tranqüilamente o frango assado que lhe preparara a Gertrudes, para depois das canseiras do dia. O abade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe à ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dores a rapariga mostrara- se corajosa; o parto fora feliz, de resto, e saíra um rapagão que fazia muita honra ao papá.
O bom abade Ferrão baixava castamente os olhos àqueles detalhes, no seu pudor de sacerdote.
- E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se dele e não o largam até a morte. Por outro lado, ainda que menos sofregamente, o Estado não o perde de vista... E aí começa o desgraçado a sua jornada do berço à sepultura, entre um padre e um cabo de polícia!
O abade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controvérsia.
- A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a pobre criatura ainda nem tem sequer consciência da vida, por lhe impor uma religião...
O abade interrompeu, meio sério, meio rindo:
- Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua alma, devo adverti-lo que o sagrado Concílio de Trento, cânon décimo terceiro, comina a pena de excomunhão contra todo o que disser que o batismo é nulo, por ser imposto sem a aceitação da razão.
- Tomo nota, abade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Concílio de Trento para comigo e outros colegas...
- Era uma assembléia respeitável! acudiu o abade já escandalizado.
- Sublime, abade. Uma assembléia sublime. O Concílio de Trento e a Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléias de homens que a terra tem presenciado...
O abade fez uma visagem de repugnância àquele cotejo irreverente entre os santos autores da doutrina e os assassinos do bom rei Luís XVI.
Mas o doutor prosseguiu:
- Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo enquanto ela faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...
- Vá, vá, doutor! murmurava o abade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados - como significando "anda, anda, enterra bem essa alma no abismo de fogo e pez"!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.