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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Maria Eduarda veio encostar-se á janella, Carlos seguiu-a; e ficaram alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doçura d'aquella solidão. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois calouse. Ella quiz saber o nome de uma povoação que branquejava ao longe ao sol na collina azulada. Carlos não se lembrava. Depois brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: Elle m'aime, un peu, beaucoup... Ella arrancou-lh'a das mãos.

- Para que precisa perguntar ás flôres?

- Porque ainda m'o não disse claramente, absolutamente, como eu quero que m'o diga...

Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Então Carlos, com os olhos mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixínho e implorando:

- Ainda não vimos a saleta de banho...

Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salão, depois através da sala de tapeçarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe no pescoço um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e côr d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella, feitas de uma sêda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um instante ficaram immoveis, sós emfim, desatado o abraço, sem se tocarem, como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade.

- Aquella horrivel cabeça! murmurou ella.

Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E então todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as arvores, n'uma demorada sésta, sob a calma de julho...

Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomára-se o café no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas. A noite estava tepida, estrellada e

serenissima. Craft, Sequeira e o Taveira passeavam fumando no terraço. Ao canto d'um sofá Cruges escutava religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha poltrona, de cachimbo na mão, fallava-se do campo.

Ao jantar Affonso annunciára a intenção de ir visitar, para o meado do mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinára-se logo uma grande romaria de amizade ás margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto «na companhia melodiosa», dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com receio da longa jornada, da humidade da aldêa. E agora tratava-se de persuadir Ega a ir tambem, com Carlos - quando Carlos acabasse emfim de reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa «á banca do labor...» Mas o Ega resistiu. O campo, dizia elle, era bom para os selvagens. O homem, á maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e a realisação do progresso, o paraíso na Terra, que presagiam os Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além um bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes para perfumar o altar da Justiça... - E o milho? A bella fruta? A hortaliçasinha? perguntava Villaça, rindo com malicia.

Imaginava então Villaça, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda se comeriam hortaliças? O habito dos vegetaes era um resto da rude animalidade do homem. Com os tempos o sêr civilisado e completo vinha a alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em pilulas, feitos nos laboratorios do Estado...

- O campo, disse então D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito pic-nic, para uma burficada, para uma partida de croquet... Sem campo não ha sociedade.

- Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se admitte...

Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassidão. E então o marquez, que já duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrára a mesma abstracção radiosa, impacientou-se:

- Homem, falle, diga alguma coisa!... Você está hoje com um ar extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o Santissimo!

Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaça achava-lhe agora melhor cara, côr d'alegria: D. Diogo, com um ar entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.

Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo áquelle exame affectuoso.

- Com effeito, disse elle, espreguiçando-se de leve, tenho estado hoje languido e mono... É o começo do verão... Mas é necessario sacudir-me... Quer você fazer uma partida de bilhar, ó marquez?

- Vá lá, homem. Se isso o resuscita...

(continua...)

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