Por Eça de Queirós (1888)
Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o «movel divino» do Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio, tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados como Marte, flanqueavam as portas,
mostrando cada uma em baixo-relevo o assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a peça superior era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, João, Marcos, Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um trophéo agricola com mólhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiças d'arados; e, á sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos, recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos.
- Então, hein? dizia Carlos. Que movel! É todo um poema da Renascença, Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se póde metter dentro d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava, como n'um altar-mór.
Ella não respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um luxo morto: finos moveis da Renascença italiana, exilados dos seus palacios de marmore, com embutidos de Cornalina e
agatha que punham um brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras côr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahús, onde se guardavam os presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com graças de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em fórma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e além, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha de setim toda recamada de flôres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de tapete do Oriente de tons severos, com versículos do Alcorão, desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sêda de um leque aberto...
Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz xv, ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de tapeçaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma d'empoado.
Carlos triumphava, vendo a admiração de Maria. Então, ainda considerava uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo?
- Não, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver uma vida pacata de aldêa no meio de todas estas raridades...
- Não diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pégo fogo a tudo!
Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianças, toda uma arte immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taça persa, d'um desenho raro, com um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma
flôr de côr viva: e aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba, Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sérios; os Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra, uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o azul-ferrete de céo tropical; os Wedgewood, côr de leite e côr de rosa, com transparencias fugitivas de concha na agua...
- Só um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, é necessario saudar o genio tutelar da casa!
Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um deus bestial, nú, pellado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, com o ventre óvante, distendido na indigestão de todo um universo - e as duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de pés humanos, que dobrava para a terra o pescoço submisso, mostrando no focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhação...
- E pensarmos, dizia Carlos, que gerações inteiras vieram ajoelhar-se diante d'este ratão, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe riquezas, morrer por elle...
- O amor que se tem por um monstro, disse Maria, é mais meritorio, não é verdade?
- Por isso não acha talvez meritorio o amor que se tem por si...
Sentaram-se ao pé da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de almofadas, cercado por um biombo de sêda branca, que fazia entre aquelle luxo do passado um fôfo recanto de conforto moderno: e como ella se queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitotil crescia tambem um grande pé de margaridas; adiante, n'um velho vaso de pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flôr d'um cacto; e dos ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.