Por Eça de Queirós (1875)
Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com aquela dificuldade que ele sentia como uma coisa viva fixá-lo e interrogá-lo: - Que havia de fazer à criança? Tinha ainda tempo de ir aos Poiais ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionísia conhecia; ou podia montar a cavalo e ir à Barrosa falar à Carlota... E ali estava, diante daqueles dois caminhos, hesitando numa agonia. Queria serenar, discutir aquele caso como se fosse um ponto de teologia, pesando-lhe os prós e os contras: mas tinha temerariamente diante de si, em lugar de dois argumentos, duas visões: - a criança a crescer e a viver nos Poiais, ou a criança esganada pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa... - E, passeando pelo quarto, suava de angústia, quando no patamar a voz inesperada do Libaninho gritou:
- Abre; parocozinho, que sei que estás em casa!
Foi necessário abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mão, oferecer-lhe uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente não se podia demorar. Passara na rua, e subira a saber se o amigo pároco tinha noticia daquelas santinhas da Ricoça.
- Vão bem, vão bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir, a prazentear.
- Eu não tenho podido ir lá, que tenho andado mais ocupado!... Estou de serviço no quartel... Não te rias, parocozinho, que estou lá fazendo muita virtude... Meto-me com os soldadinhos, falo-lhes das chagas de Cristo...
- Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos papéis da mesa, passeava, numa inquietação de animal preso.
- Não é para as minhas forças, pároco, que se eu pudesse!... Olha, agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos pelo Saldanhinha, vão cheios de virtude. Ontem dei outros iguais a um anspeçada, perfeito rapaz, um amor de rapaz. Pus-lhos eu mesmo por baixo da camisola. Perfeito rapaz!...
- Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel, disse Amaro abrindo a janela, abafando de impaciência.
- Credo, olha o ímpio! Se o deixassem desbatizava o regimento. Pois adeus, parocozinho. Estás amarelinho, filho... Precisas purga, eu sei o que isso é.
Ia a sair, mas à porta, parando:
- Ai, dize cá, parocozinho, dize cá: tu ouviste alguma coisa?
- De quê?
- Foi o padre Saldanha que mo disse. Diz que o nosso chantre declarara (palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um escândalo com um senhor eclesiástico... Mas não disse quem nem o quê... O Saldanha qui-lo sondar, mas o chantre diz que recebera só uma denúncia vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: quem será?
- Pataratas do Saldanha...
- Ai, filho ! Deus queira que sejam. Que quem folga, são os ímpios... Quando fores pela Ricoça dá recados àquelas santinhas...
E pulou pelos degraus a ir levar "a virtude" ao batalhão.
Amaro ficara aterrado. Era ele decerto, eram os seus amores com Amélia que já iam chegando ao vigário-geral em denúncias tortuosas! E ali vinha agora aquele filho, criado a meia légua da cidade, ficar como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinário, quase sobrenatural, ter o Libaninho, que em dois anos não lhe viera a casa duas vezes, ter o Libaninho entrado com aquela nova terrível, quando ele estava ali numa batalha com a consciência. Era como a Providência, que sob a forma grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: "Não deixes viver quem te pode trazer o escândalo! Olha que jà se suspeita de ti!".
Era decerto Deus apiedado que não queria que houvesse na terra mais um enjeitado, mais um miserável, - e que reclamava o seu anjo!...
Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e daí a cavalo para a casa de Carlota.
Demorou-se lá até às quatro horas.
De volta a casa atirou o chapéu para cima da cama, e sentiu enfim um alívio de todo o seu ser. Estava acabado! Lá falara à Carlota e ao anão; lá lhe pagara um ano adiantado; agora era esperar pela noite!
Mas na solidão do quarto toda a sorte de imaginações mórbidas o assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha roxa; via os cabos de polícia mais tarde a desenterrar o cadáver, o Domingos da administração redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delito, e ele, de batina, arrastado para cadeia de S. Francisco, em ferros, ao lado do anão! Tinha quase vontade de montar a cavalo, voltar à Barrosa desfazer o ajuste. Mas uma inércia retinha-o. Depois, nada o forçava à noite a entregar a criança à Carlota... Podia levá-la bem agasalhada à Joana Carreira, a boa ama dos Poiais...
Para escapar àquelas idéias que lhe faziam sob o crânio um ruído de tormenta, saiu, foi ver Natário que já se erguia - e que lhe gritou imediatamente do fundo da poltrona:
- Então você viu, Amaro? O idiota, de lacaio atrás!
João Eduardo passara-lhe na rua, na égua baia, com os Morgadinhos; e Natário desde então rugia de impaciência de estar ali amarrado à cadeira e não poder recomeçar a campanha, expulsá-lo por uma boa intriga da casa do Morgado, arrancar-lhe a égua e o lacaio.
- Mas não as perde, em Deus me dando pemas...
- Deixe lá o homem, Natário, disse Amaro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.