Por Eça de Queirós (1940)
Uma historieta política que tem chique. Parece evidente que Burghers, presidente da República do Transval, tinha pelo príncipe de Bismarck um fanatismo extraordinário e que, num ímpeto de entusiasmo, escreveu ao príncipe oferendo-lhe, de mão a mão, a República do Transval. O príncipe, espantado, embaraçado com o presente, não querendo p república para nada, participou isto ao Governo inglês; à vista disto, o Governo inglês, vendo aos seus pés uma república sem dono, oferecida por um, recusada por outro, fez o que era natural – suprimiu o presidente Burghers e meteu no bolso a república.
Os dois grandes escândalos da quinzena foram provocados por dois livros: um de ordem religiosa e outro de ordem moral. Ambos eles são graves sintomas, e a excitação que os dois casos tem provocado na imprensa, nas revistas e na opinião prova que se vê nesses dois livros mais do que expressões individuais e isoladas de opiniões nocivas.
O que causou mais barulho foi o livro de ordem religiosa, o Priest in Absolution; este livro, que se deveria chamar «O Padre e a Confissão», é simplesmente uma exposição do velho sistema católico, a dominação do padre na família pela sua influência na mulher. Ensina-se nele como o padre se deve apossar do espírito fraco da esposa ou da filha, dominá-lo, reinar nele, e por ele estar senhor da fortuna, das opiniões, dos actos do homem. Podem imaginar o alarido que o descaramento desta doutrina, impressa em panfleto, causou na protestante Inglaterra.
Há anos que a mão do catolicismo romano, do catolicismo do Syllabus, se estende lentamente sobre a Inglaterra, para se apossar dela. Como um vírus venenoso que lenta e obscuramente se espalhe nas veias e nos tecidos de um corpo são – o espírito ultramontano penetra surdamente toda a Inglaterra.
Em todas as igrejas, em todos os ritos, se sente esta lenta absorção. A evolução começa lentamente sempre pela decoração das igrejas e pela cerimónia do culto: a antiga nudez severa dos templos protestantes considera-se excessivamente fria e tendente a arrefecer o zelo e a assiduidade; por isso, pensa-se que as flores, a música, os cantos, as armações, deveriam ser introduzidas como um meio de atracção e como um acréscimo de adoração: os padres, então, imaginam que o roupão branco, que é a vestimenta protestante, é de uma simplicidade muito secular e principiam a cobrir-se de vestimentas complicadas e simbólicas do culto romano. Imediatamente as cerimónias simples e severas do protestantismo começam a ser sobrecarregadas com o aparatoso cerimonial da celebração católica; depois vem-se exigir aos fiéis uma atitude diferente: as genuflexões, as pancadas no peito e o rosário tornamse obrigatórios; daí vêm certas celebrações em comum muito semelhantes às novenas, aos meses de Maria. Logo exige-se a confissão secreta, a penitência; formam-se sociedades de adorações, e pouco a pouco, por este processo, cada templo protestante se vai convertendo numa igreja católica. Debalde a Igreja oficial protesta, condena, grita.
A conversão vai-se fazendo lentamente mas seguramente. As mulheres, sobretudo, são a grande alma do movimento: a inglesa é sensível, exaltada, voluptuosa, e bem depressa encontra na nova cerimónia à romana um encanto, uma ternura, uma poesia, que não lhe dão a seca prédica protestante, numa casa nua e alumiada a gás. Por isso, tantas mulheres se convertem. Além disso, na alta sociedade, ser católico começa a ser elegante.
As grandes famílias aristocráticas de Inglaterra, Norfolk, Ripon, Bute, são católicas e, para serem recebidos nos seus círculos íntimos, os ambiciosos da sociedade não têm dúvida em se converter. Mas este movimento, ao menos até aqui, tem sido tímido, oculto, e acanhado: o Priest in Absolution é a sua primeira exposição pública; é uma espécie de grito místico lançado pela seita: «Comecemos pelas mulheres e a sociedade é nossa!» Toda a Inglaterra protestante e sensata tremeu de furor: a opinião geral é que para os jesuítas não se deve empregar o argumento, mas a força. O Punch, como crítica do livro, apresenta a forte figura simbólica de John Bull agarrando o jesuíta pelas orelhas, arrastando-o para longe para o sovar à vontade! Os jornais têm visos de cólera. Tem havido interpelações ao Governo sobre a publicação do livro – e todo este barulho tem lançado uma grande luz sobre a sociedade católica que o publicou e que se chama Sociedade da Santa Cruz.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.