Por Eça de Queirós (1925)
A esta vaga associação de fanatismos, chamavam, em Coimbra, os Philosophos, ou tambem os Atheus. Elles mesmos se denominavam o Cenacub. E ainda que não havia sessões regularmente organisadas, quasi. todas as noites se jun.tavam no largo quarto do na Couraça. E Arthur sentiu os olhos humedecerem-se-lhe d'enthusiasmo quando pela primeira vez, na fumarada dos cigarros, onde os tres bicos do candieiro de latão punham tres luzinhas sedentarias, ouviu vozes fanaticas discutirem, em estylo d'ode, a Arte, as Religiões, o Pantheismo, o Positivismo, a estupidez dos lentes, o Ser, o Ramayana, o Messianismo germanico, a Revolução de 89, Mozart e o Absoluto.
N 'aquella « cavaqueira philosophica I), só o forte Theodosio se conservava mudo, assombrado das idéas, como deante das portas augustas e inaccessiveis d'um sanctuario. Mas a sua presença athletica era querida de todo o Cenaculo : além de excellente rapaz, sempre com dez tostões no bolso para partilhar com um condiscipulo pobre, elle tinha urna admiração servil por todos aquelles « geIlios Ao lado de taes espiritos, exclusivamente occupados da Idéa, elle punha a protecção formidavel dos seus musculos e da sua móca. Uma noite que o Ccnacuto discutia furiosamente Luthero e a Reforma, sentiram-se ao fundo da escada os gritos do filho da servente, espancado por futricas. Todos se ergueram para acudir. Então Theodosio trovejou, alçando a mãe :
Ninguem se mexa ! Continue-se a bella discussão ! Aqui na casa, para a bordoada, só eu !
Desceu com a immensa móca e d'ahi a pouco, na rua, era uma debandada afflicta de futricas desbaratados.
Desde então, tacitamente, entre os membros do Cenaculo, que se consideravam uma aristocracia da Intelligencia, semi-Deuses muito acima da obscura humanidade academica, no cimo d'um Olympo — Theodosio, com os seus bigodes, os seus punhos que erguiam arrobas, e sobretudo a sua tremenda maça, foi o Hercules, o Alcides pagão, o subjugador dos rebeldes — e, ao lado dos Sacerdotes da Idéa, a personificação da Força. Mas isto não bastava a Theodosio e na sua dedicação pelos genios com quem vivia, para partilhar mais directamente dos seus interesses espirituaes, servir utilmente o Cenaculo, collaborar no culto da Idéa, não podendo fornecer theorias e phrases — encarregava-se pouco a pouco de ir comprando os livros. Filho de proprietarios ricos, com uma mesada abundante, era elle que fornecia a Bibliotheca do Cenaculo, o todas as semanas, seguindo as instrucções de Damião ou de Cesario, apparecia trazendo em triumpho um volume de Michelet, de Renan, de Taine, ou de Heine, a que cortava as folhas reverentemente, dizendo com ar finorio :
— Ora vamos a vêr o que diz cá o patrão !
depois de ter, por um momento, esgazeado os olhos para o livro, concluia gravemente :
— Já vejo que é obra curiosa e para leitura demorada. Hei-de saboreava na cama.
Abandonava o volume a algum do Cenacuto e subia para o quarto a estudar a sua lição de viola franceza.
Mas conquistara assim o direito de ser um dos Philosophos. Contribuia tambem largamente para as despezas do Pensamento — o que o habilitava, se alguem lhe era antipathico, a formular parallelamente estas duas ameaças medonhas : o peso da sua móca e uma desanda no jornal Mas o que o satisfazia mais, era poder pronunciar phrases notaveis que recolhia no Cenacuto : assim, quando sahia com os amigos a matar gatos á móca, nunca deixava de exclamar, mostrando o céu estrellado :
— Isto, rapazes, não é lá qualquer coisa. É a lepra luminosa da face de Deus !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.