Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquie tar-me. F... estavaevidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.Entregar à polícia este negócio, tão vago e tão incompleto como ele é, seria tornar-me o denunciante de uma quimera. Sei que, em resultado das primeiras notícias que lhe dei, o Governador Civil de Lisboa oficiou ao administrador de Sintra convidando-o a meter o esforço da sua polícia no descobrimento deste crime. Foram inúteis estas providências. Assim devia ser. O sucesso que constitui o assunto destas cartas está por sua natureza fora da alçada das pesquisas policiais. Nunca me dirigi às autoridades, quis simples mente valer-me do público, escolhendo para isso as colunas popu lares do seu periódico. Resolvi homiziar-me, receando ser vítima de uma emboscada.

São óbvias, depois disto, as razões por que lhe o meu no me: assinar estas linhas seriapatentear-me; não seria esconder-me, como quero.

Do meu impenetrável retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do Sol nascenteatravés das minhas gelosias. Ouço os pregões dos vendedores matinais, os chocalhos das vacas, o rodar das carruagens, o murmúrio alegre da povoação que se levanta de pois de um sono despreocupado e feliz... Invejo aqueles que não tendo a fatalidade de secretas aventuraspasseiam, conversam, mourejam na rua. Eu — pobre de mim! — estou encarcerado por um mistério, guardado por um segredo!

P. S. — Acabo de receber uma longa carta de F... Esta carta, escrita há dias, só hoje meveio à mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante mis siva. Aí tem,senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte dessa carta, da qual depois de amanhã lhe enviarei o resto. Publi que-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento nesteobscuro sucesso; é um vestígio luminoso e profundo. F... é um escritor público, e descobrir pelo estilo um homem é muito mais fá cil do que reconstruir sobre um cabelo a figura de uma mulher. É gravíssima a situação do meu amigo. Eu, aflito, cuidadoso, he sitante, perplexo,não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me à decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autógrafo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem.. se puderem. Adeus!

INTERVENÇÃO DE Z. Nota do Diário de Notícias . — No original da carta publica da ontem havia algumaspalavras a lápis, nas quais só fizemos re paro depois de impresso o jornal. Essas palavras continham esta observação:

A fotografia do mascarado foi feita em casa de Henri que Nunes, Rua das Chagas, Lisboa. Talvez aí possa haver noticia do sujeito fotografado.

Antes de darmos à estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos foi ontemenviada pelo médico, é dever tornar conheci da uma outra importantíssima que recebemos pela posta interna, assinada com a inicial Z, e que temos em nosso poder há já três dias. Estacarta, que tão estreitamente vem prender-se na histó ria dos sucessos que constituem o assunto desta narrativa, é a se guinte:

Senhor redactor do Diário de Notícias. — Lisboa, 30 de Julho de 1870. — Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quase toda a gente em Lisboa, as cartaspublicadas na sua folha, em que o doutor anónimo conta o caso que essa redacção intitulou

O Mistério da Estrada de Sintra. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade despreocupada que se liga a um canard fabricado com engenho, a um romance à semelhança dos Thugs e de alguns outros do mesmo género com que a veia imaginosa dos fantasistasfranceses e americanos vem de quando em quando acordar a atenção da Europa para um sucesso estupendo. A narração do seu periódico tinha sobre as demais que tenho li do omérito original de se passarem os sucessos ao tempo que se vão lendo, de serem anónimas as personagens e de estar tão secretamente encoberta amola principal do enredo, que nenhumleitor poderia contestar com provas a veracidade do caso portentosamen te romanesco, que o autor da narrativa se lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o idealmais perfeito, o tipo mais acabado do roman feuilleton, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as ini ciais de um nome de homem — A. M. C. — acrescentando-seque a pessoa designada por estas letras é estudante de medicina e na tural de Viseu. Eu tenho um amigo querido com aquelas iniciais no seu nome. É justamente estudante de medicina e natural de Viseu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia, portanto, o intuito de fa zercobardemente uma insinuação infamíssima. Isto não é lícito a romancista nenhum.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →