Por Eça de Queirós (1875)
- Ai, nem diga isso! Que o padre Félix é uma pessoa de muita virtude, decerto; mas o padre Liset tem uma religião mais... - e com um gesto delicado procurava a palavra: - mais fina, mais distinta...
Enfim, vive com outra gente. - E sorrindo para Amaro: - Pois não acha?
Amaro não conhecia o padre Félix, não se recordava do padre Liset.
- Já é velho o Sr. padre Liset, observou ao acaso.
- Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que entusiasmo!... Ai, é outra coisa! - E voltando-se para a senhora que estava junto do piano: - Pois não achas, Teresa?
- Já vou, respondeu Teresa, toda absorvida.
Amaro afirmou-se então nela. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com a sua alta e forte estatura, uma linha de ombros e de seio magnífica; os cabelos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a palidez do rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Maria Antonieta; o seu vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom monótono das alvuras da sala; o colo, os braços estavam cobertos por uma gaze preta, que fazia aparecer através da brancura da carne; e sentia-se nas suas formas a firmeza dos mármores antigos, com o calor dum sangue rico.
Falava baixo, sorrindo, numa língua áspera que Amaro não compreendia, cerrando e abrindo o seu leque preto - e o rapaz louro, bonito, escutava-a retorcendo a ponta de um bigode fino, com um quadrado de vidro entalado no olho.
- Havia muita devoção na sua paróquia, Sr. Amaro? perguntava, no entanto, a condessa.
- Muita, muito boa gente.
- É onde ainda se encontra alguma fé, é nas aldeias, considerou ela com um tom piedoso. - Queixou-se da obrigação de viver na cidade, nos cativeiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de Carcavelos, rezar na pequena capela antiga, conversar com as boas almas da aldeia! - e a sua voz tornara-se terna.
O rapaz rechonchudo ria-se:
- Ora, prima! dizia, ora, prima! - Não, ele, se o obrigassem a ouvir missa, numa capelinha de aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!... Não compreendia, por exemplo, a religião sem música... Era lá possível uma festa religiosa, sem uma boa voz de contralto?
- Sempre é mais bonito, disse Amaro.
- Está claro que é. É outra coisa! Tem cachet! Ó prima, lembra-se daquele tenor... como se chamava ele? O Vidalti! Lembra-se do Vidalti, na quinta-feira de Endoenças, nos Inglesinhos? O tantum ergo?
- Eu preferia-o no Baile de Máscaras, disse a condessa.
- Olhe que não sei, prima, olhe que não sei!
No entanto o rapaz louro viera apertar a mão à senhora condessa, falando-lhe baixo, muito risonho; Amaro admirava a nobreza da sua estatura, a doçura do seu olhar azul; reparou que lhe caíra uma luva, e apanhou-lha servilmente. Quando ele saiu Teresa, depois de se ter aproximado vagarosamente da janela e olhando para a rua - foi sentar-se numa causeuse com um abandono que punha em relevo a magnífica escultura do seu corpo, e voltando-se preguiçosamente para o rapaz rechonchudo:
- Vamo-nos, João?
A condessa disse-lhe então:
- Sabes que o Sr. padre Amaro foi criado comigo em Benfica?
Amaro fez-se vermelho: sentia que Teresa pousava sobre ele os seus belos olhos dum negro úmido como o cetim preto coberto de água.
- Está na província agora? perguntou ela, bocejando um pouco.
- Sim, minha senhora, vim há dias.
- Na aldeia? continuou ela, abrindo e cerrando vagarosamente o seu leque.
Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse, acariciando o cabo do guarda-
sol:
- Na serra, minha senhora.
- Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! Há sempre neve, diz que a igreja não tem telhado, são tudo pastores. Uma desgraça! Eu pedi ao ministro a ver se o mudávamos. Pede-lhe tu também...
- O quê? disse Teresa.
A condessa contou que Amaro requerera para uma paróquia melhor. Falou de sua mãe, da amizade que ela tinha a Amaro...
- Morria-se por ele. Ora um nome que ela lhe dava... Não se lembra?
- Não sei, minha senhora.
- Frei Maleitas!... Tem graça! Como o Sr. Amaro era amarelito, sempre metido na capela...
Mas Teresa, dirigindo-se à condessa:
- Sabes com quem se parece este senhor?
A condessa afirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.
- Não se parece com aquele pianista do ano passado? continuou Teresa. Não me lembra agora o nome...
- Bem sei, o Jalette, disse a condessa. - Bastante. No cabelo, não.
- Está visto, o outro não tinha coroa!
Amaro fez-se escarlate. Teresa ergueu-se arrastando a sua soberba cauda, sentou-se ao piano.
- Sabe música? perguntou, voltando-se para Amaro.
- A gente aprende no seminário, minha senhora.
Ela correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas, e tocou a frase do Rigoleto, parecida com o Minuete de Mozart , que diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro ato, da senhora de Crécy, - e cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.