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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Estava dando meio-dia, o sol de julho abrasava as ruas: e as lojas fechadas, a gente nos seus fatos de Domingo, as carruagens de praça abrigadas no lado à sombra, tudo dava uma sensação maior de calma e de inércia. Uma poeira sutil embaciava o azul; e o mesmo som dos sinos arrastava pesadamente, no ar mole. Quando Godofredo trepava as escadas do Carvalho – topou justamente com ele, que descia, satisfeito e fresco, no seu fato novo de cheviot claro, calçando as luvas gris-perle. A figura esbaforida, o ar aflito de Godofredo, espantaram-no: e tornou a subir, abriu ele mesmo a cancela com o trinco, fê-lo entrar num pequeno gabinete, onde havia uma estante e uma longa cadeira de vime, em forma de leito de campanha. Ao lado na sala, tocava-se piano, um tom de valsa rápido, que fazia vibrar a casa.

E o Carvalho correu o reposteiro, fechou a janela aberta, antes de perguntar o que era?

Godofredo pusera o chapéu a um canto da mesa e imediatamente desabafou, dum jato.

Às primeiras palavras de sofá, de braço pela cinta, Carvalho, que tirava lentamente as luvas, ficou petrificado, no meio do gabinete: e foi correr ainda mais o reposteiro, como se receasse que a história daquela traição lançasse uma exalação indecente através do seu prédio. Mas, na atrapalhação com que o Godofredo contara a história, na sofreguidão com que a escutou, não percebera bem quem era o homem, apenas compreendendo que o Machado estava presente: e quando soube que era ele que estava no sofá, bateu as mãos uma contra a outra, teve uma exclamação de horror.

— Que infâmia!

— Um homem que era como um irmão para mim – exclamava Godofredo, baixando a voz, brandindo os punhos. – E paga-me assim... Não, é necessário haver morte de homem. Quero um duelo de morte!

Então todo o rosto barbudo do Carvalho exprimiu uma inquietação. Agora percebia. Godofredo não viera ali só desabafar, viera arranjar uma testemunha: e tomava-o logo um susto de burocrata, um medo da lei, o receio de se comprometer. E o seu egoísmo revoltou-se diante das coisas violentas e perturbadoras que pressentia. Quis atenuar, logo procurou explicações. Enfim, se Godofredo não vira mais nada... Se era só estarem na sala... Podia ser uma brincadeira, uma tolice...

Godofredo, febrilmente, procurava nas algibeiras. O piano dentro caíra agora a sons vagos, como de dedos que tenteiam, procuram uma melodia esquecida. De repente um bocado do Rigoletto rompeu, com um arranque gemido e soluçante. E Godofredo, que achara enfim a carta, pô-la diante dos olhos de Carvalho. O outro leu a meia voz:

—“Ai Riquinho da minha alma, que beijinhos tão bons...”

E, como se aquelas palavras, ouvidas na voz do outro, lhe parecessem mais infames que quando ele as lera, não se conteve, elevou a voz, gritou:

— Não, isso com sangue, é necessário um duelo de morte...

Carvalho, inquieto, fez-lhe sinal que se calasse. E como o piano parou, um momento ficou escutando, receando que o grito do outro tivesse sido ouvido:

— É a Mariana – disse ele indicando a sala... – Pôr ora é melhor que ela não saiba...

Depois voltou a ler a carta, lentamente: e palpou o papel, revirou-o, conservando-o nos dedos com uma curiosidade excitada, como se sentisse ali o calor dos beijinhos...

E Godofredo procurou ainda mais pelas algibeiras, descontente de Ter esquecido as outras cartas. Porque havia ainda outras piores! E citou frases, exibiu toda a tolice, todo o descaro de Ludovina, tomado agora apenas do desejo de vencer bem o Carvalho que sua mulher era uma prostituta.

— De resto ele não negou, disse a tudo que sim! — O que, vocês falaram?

Então, depois duma hesitação, Godofredo acabou a confidência, a sua idéia de um suicídio à sorte, o encontro que tivera com o Machado. O Carvalho, que caíra para cima do sofá, como que brado, esmagado pôr todas aquelas revelações, abria uns grandes olhos na sua face queimada de África, espantado de que aquelas coisas violentas, terríveis, se estivessem realmente passado, e fossem ditas ali, no seu tranqüilo prédio do Rossio...

Quando Godofredo contou que o Machado achara aquilo insensato, Carvalho não se conteve.

— De doido! De puro doido! – exclamou erguendo-se.

E, gesticulando pelo estreito gabinete, procurava uma frase para classificar aquilo, falava ainda de doidice, terminou pôr dizer que semelhantes coisas só se viam no Rocambole:

— Vem das na mesma – disse Godofredo. – Porque eu exijo que o duelo seja à pistola, uma só carregada, e tirada ao acaso...

Carvalho deu um pulo.

—Uma só pistola, ao acaso? Mas isso é um assassinato. Não, escusas de contar comigo. Não há motivo para isso... Mas nem que houvesse numa dessas não me metia eu!

Vendo-se abandonado, Godofredo revoltou-se. Então, naquela crise terrível, ele, o seu melhor amigo, deixava-o assim ficar mal? De quem melhor amigo, deixava-o assim ficar mal? De quem se havia de valer? A quem havia de confiar a sua honra?

O outro despropositou. Falou outra vez de assassinato, de crime e de prisão; terminou pôr dizer:

(continua...)

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