Por Eça de Queirós (1900)
O Fidalgo encolhera os ombros. A Política! Como se ele pensasse na Autoridade, no Sr. Governador Civil de Oliveira - quando injuriava o Sr. André Cavaleiro, de Corinde! Não! O que detestava era o homem - o falso homem de olho langoroso! Porque entre eles existia um desses fundos agravos que outrora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos senhoriais... - E pela estrada, com a lua no alto dos outeiros de Valverde, enquanto no violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do Vimioso, Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquela história que tanto enchera a sua alma desocupada. Ramires e Cavaleiros eram famílias vizinhas, uma com a velha torre em Santa Irenéia, mais velha que o Reino - a outra com quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando ele, rapaz de dezoito anos, enfiava enfastiadamente os preparatórios do Liceu, André Cavaleiro, então estudante do Terceiro Ano, já o tratava como um amigo sério. Durante as férias, como a mãe lhe dera um cavalo, aparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravais e Valverde, lhe confiava, como a um espírito maduro, as suas ambições políticas, as suas idéias de vida que desejava grave e toda votada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flor dos seus dezesseis anos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a "Flor da Torre". Ainda então vivia a governante inglesa de Gracinha, a boa Miss Rhodes - que, como todos na Torre, admirava com entusiasmo André Cavaleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabeleira romântica, a doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que lhe amolecia a alma e os princípios perante a soberania do Amor, favorecera demoradas conversas de André com Maria da Graça sob as olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o muro baixo da Mãe-d'Água. Todos os domingos o Cavaleiro jantava na Torre: e o velho procurador Rebelo já preparara, com esforço e resmungando, um conto de réis para o enxoval da "menina". O pai de Gonçalo, Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Política e em dívidas, amanhecendo só na Torre aos domingos, aprovava esta colocação de Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse, criava na sua vida, já difícil, um tropeço e um cuidado. Sem representar como ele uma família de imensa Crônica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, André Cavaleiro era um moço bem-nascido, filho de general, neto de desembargador, com brasão legítimo na sua casa apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa semeadura, limpas de hipotecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um dos chefes históricos, já filiado no Partido Histórico (desde o Segundo Ano da
Universidade), a sua carreira andava marcada com segurança e brilho na Política e na Administração. E enfim Maria da Graça amava enlevadamente aqueles reluzentes bigodes, os ombros fortes de Hércules bem-educado, o porte ufano que lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ela, em contraste, era pequenina e frágil, com uns olhos tímidos e esverdeados que o sorriso umedecia e enlanguescia, urna transparente pele de porcelana fina, e cabelos magníficos, mais lustrosos e negros que a cauda dum corcel de guerra, que lhe rolavam até os pés, em que se podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as alamedas da quinta, Miss Rhodes (que o pai, professor de Literatura Grega em Manchester, recheara de Mitologia) pensava sempre em "Marte cheio de força amando Psique cheia de graça". E mesmo os criados da Torre se maravilhavam do "lindo par"! Só a Sra. D. Joaquina Cavaleiro, a mãe de André, senhora obesa e rabugenta, detestava aquela terna assiduidade do filho na Torre, sem motivo pesado, só por "desconfiar da pinta da menina e desejar nora mais comezinha..." Felizmente, quando André Cavaleiro se matriculava no Quinto Ano, a desagradável matrona morreu duma anasarca. O pai de Gonçalo recebeu a chave do caixão: Gracinha tomou luto; e Gonçalo, companheiro de casa do Cavaleiro na rua de S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga da batina. Logo em Santa Irenéia se pensou que o esplêndido André, libertado da peca oposição da mamã, pediria a "Flor da Torre" depois do Ato de Formatura. Mas, findo esse desejado Ato, Cavaleiro abalou para Lisboa - porque se preparavam Eleições em outubro, e ele recebera do tio Reis Gomes, então Ministro da Justiça, a promessa de "ser deputado" por Bragança.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.