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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Pois convence-te, menina – volveu a fidalga, revertendo a custo à seriedade do ato – que estás passando pelo que passei; mas este cá me quer parecer mais manhoso do que o outro. Tem mais lábia. Vem cá com estas coisas dos artigos da fé, que rezava o pai... Pudera não! Ou ele não fosse sacristão!... Aposto eu que o filho não sabe o Padre Nosso! Se o pai era feliz na sua baixa posição, porque não vai ele para o lugar do pai? Eu já disse ao Zé tendeiro que se deixasse de o mandar estudar no Porto; que o metesse num ofício. E ele quem lhe deu dinheiro para seguir os estudos de cirurgião, ou médico, ou lá do que é? O cunhado quanto tem quanto me deve. Emprestei-lhe um conto de réis, a juro há três anos, e paga-me em arroz e bacalhau. Nem daqui a vinte anos me tem pago. Ora não há! – continuou a credora do merceeiro aguçando a voz em iracundo falsete – se eu via minha sobrinha casada com um lapuz, que ainda há anos andava por aí a jogar a pedrada no cais! Onde foi ele aprender este palavreado!... Nada... isto é dalgum finório que esperava ganhar alguma coisa se caísse o raio na minha família. Não há de cair! – bradou ela batendo com os ossos do pulso no capacho de palha em que encruzara as pernas. – Não há de cair, enquanto eu for viva! Teu pai não te quer casar? Eu te casarei! Escolhe. Tens cinco pretendentes. Um da casa de Paço-vedro; outro da Passagem; outro de Aborim; outro de Aguião; outro de Azevedo; outro de... quem é o outro?

― Não sei, minha tia; nem quero saber, porque não caso com nenhum.

― Não casas com nenhum?! – assobiou a velha erguendo-se duas polegadas de salto acima do capacho.

― Não, minha senhora.

― Não?!... Vou escrever a teu pai! Ele te obrigará!

― Meu pai não quer que eu case com algum desses que a tia nomeou.

― Não? Mas eu vou dizer-lhe que há um pretendente mais moderno: o Francisco do sacristão. Pode ser que ele queira este. O negócio vai arranjar-se. Queres que lhe de parte do novo arranjo? Responde: isto é pedir de boca. Teu pai deve querer que o décimo nono senhor do Paço de Gondar seja neto do sacristão da Senhora da Agonia. Tem vergonha! Tem vergonha! – rebramiu a velha, erguendo-se de ímpeto, e bradando a Vitorina que lhe trouxesse mais chá de cidreira.

X

O POETA

D. Beatriz injuriara cruelmente Francisco José da Costa; mas não conseguira envenenar com a dúvida a coração de Ângela.

A corajosa menina, livre da velha, que adormecera quabrantada de insultos nervosos, fechou-se a ler as cartas do moço, e a escrever-lhe a noticia das tribulações daquele dia. Atraiçoada pela medianeira da correspondência, suplicou a Vitorina que fizesse entregar aquela carta, prometendo-lhe ser a última. Condoeu-se a criada, movida também pela esperança de ver terminado o funesto namoro, prenúncio de maiores desgraças. Foi ela propriamente entregar a carta, e pedir a Francisco da Costa que saísse de Viana, se não queria que a menina perdesse o amor de sua tia, e, pior ainda, a proteção do pai. Ainda assim, os dizeres da carta desdiziam dos rogos da criada. Ângela pedia-lhe amor e animo, paciência e esperança, jurando morrer antes de sucumbir a um casamento violentado.

O estudante esperou alguns minutos que as lágrimas o desafogasse, e, escrevendo, pedia perdão a Ângela da sua covardia. “Sou covarde – escrevia ele – porque fujo; covarde porque me não atrevo a ver o rosto da infelicidade que te ameaça. Vou sair de Viana. Quando souber que o meu nome passou do desprezo ao esquecimento de tua tia, voltarei. Se te encontrar tranqüila, não perturbarei o teu sossego. Para eu te adorar, como até aqui, em todas as situações estarás bem, minha amiga. Ainda ligada a outro homem, eu saberei separar o anjo da mulher. O que eu não quero, nem posso, é tirar-te o nome, o prestígio, o amparo e a honra que só é visível enquanto a consideração pública a proclama ou finge reconhecer...”

― Ele não me ama! – disse, entre soluços, D. Ângela a Vitorina. – Não me ama, e eu hei de ser muito desgraçada por amor dele!...

A criada louvava-se a si do conselho, e agradecia a Deus a honrada determinação do estudante, dando como terminado o lance em que o belo e rico futuro da sua menina corria perigo. Ângela, todavia, asseverava que tudo estava perdido para ela, e que só lhe restava reduzir-se à extrema pobreza e desvalimento do pai, a ver se assim o homem pobre e plebeu a queria para esposa.

(continua...)

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