Por Eça de Queirós (1888)
Só o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas: e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doçura rara, e uma alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo bom Deus para alumiar a festa do seu coração. Correu logo á sala de jantar, a verificar se, na mesa posta para o lunch, se conservavam ainda viçosas as flôres que lá deixára na vespera. Depois voltou ao coupé a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia só passando uma saloia montada na sua egua.
Mas apenas accommodára o gelo - sentiu fóra o ruido lento da carruagem. Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro da Conpanhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-véo espesso como uma mascara. Os seus pésinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve:
- Êtes-vous là?
Appareceu - e ficaram um instante, á porta do gabinete, apertando sofregamente as mãos, sem fallar, commovidos, deslumbrados.
- Que linda manhã! disse ella por fim, rindo e toda vermelha.
- Linda manhã, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.
Maria Eduarda resvalára sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansaço delicioso, deixando calmar o alvoroço do seu coração.
- É muito confortavel, é encantador tudo isto, dizia ella olhando lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com um tapete de Brousse, a estante envidraçada cheia de livros. Vou ficar aqui adoravelmente...
- Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido a olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mão...
Maria Eduarda começou atirar o véo, depois as luvas, fallando da estrada. Achara-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa!
Atirou o chapéo para cima do divan - ergueu-se, toda alegre e luminosa.
- Vamos vêr a casa, estou morta por vêr essas maravilhas do seu amigo Craft!... É Craft que se chama?
Craft quer dizer industria!
- Mas ainda nem sequer lhe beijei a mão! tornou Carlos, sorrindo e supplicante.
Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braços.
E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de quinta que a separavam do resto do mundo...
Ella deixava-se beijar, séria e grave:
- E é verdade isso? É realmente verdade?...
Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste:
- Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga que já Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que não duvide de mim...
Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.
- Vamos vêr a casa, disse ella.
Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam sobre o rio e sobre os campos.
- Os seus aposentos, disse Carlos, hão de ser em baixo, está visto, entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui esplendidamente. Não lhe parece?
E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodação dos armarios, palpando a elasticidade dos colxões, attenta, cuidadosa, toda no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma alteração. E era realmente como se aquelle homem que a seguia, enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio.
- O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor para Rosa. Mas a pequena não póde dormir n'aquelle enorme leito de pau preto...
- Muda-se!
- Sim, póde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, ás horas do calor... Se não houvesse o tabique entre os dois quartos pequenos... - Deita-se abaixo
Elle esfregava as mãos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e ella não recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus.
Desceram á sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminé de carvalho lavrado, flanqueada á maneira de cariatides pelas duas negras figuras de Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda começou a achar o gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos não lhe dizia que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua excentricidade...
- Oh, a vista é que é deliciosa! exclamou ella chegando-se á janella.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.