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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Fiquei aqui a dizer ao Ega... É evidente que quando se trata de paizagem é necessario copiar a realidade... Não se póde descrever um castanheiro a priori, como se descreveria uma alma... E lá isso faço eu... Ahi está esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. É realista, está claro que é, realista... Pudéra, se é paizagem! Ora eu vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas vejam lá vocês se isto os massa...

Qual massava! E até, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S. Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pôr do sol: uma ingleza, de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda que domina um vale; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das madresilvas; então a ingleza pára, deixa o burrinho, olha enlevada o céo, os arvoredos, a paz das casas; - e ahi, no ultimo terceto, vinha «a nota realista» de que se ufanava o Alencar:

Ella olha a flôr dormente, a nuvem casta, Emquanto o fumo dos casae se eleva E ao lado o burro, pensativo, pasta.

- Ahi têm vocês o traço, a nota naturalista... Ao lado o burro, pensativo, pasta... Eis ahi a realidade, está-se a vêr o burro pensativo... Não ha nada mais pensativo que um burro... E são estas pequeninas coisas da natureza que é necessario observar... Já vêem votos que se póde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades... Vocês que lhes parece o soneto?

Ambos o elogiaram profundamente - Carlos arrependido de não ter completado a humilhação do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, já desanuviado, foi acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, só, de noite, na pôpa do seu galeão, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flôr secca, entre soluços. Alencar achava isto sublime. Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir á rua de S. Francisco - quando o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com urgencia. Não o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianças hollandezas.

- Você, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vêr tudo isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma missão... Você não adivinha?

Carlos não adivinhava.

E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um sorriso:

- Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se você hoje, n'aquillo que lhe disse, tinha tenção de o offender. É, só isto... A minha missão é apenas esta: perguntar-lhe se você tinha intenço de o offender. Carlos olhou-o, muito sério:

- O quê!? Se tinha intenção de offender o Damaso quando o ameacei de lhe arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha só intenção de lhe arrancar as orelhas!

Telles da Gama saudou, rasgadamente:

- Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que você não tinha senão essa intenção. Em todo o caso, desde este momento, a minha missão está finda... Como você tem isto bonito!... O que é aquelle prato grande, majolica?

- Não, um velho Nevers. Veja você ao pé... É Thetis conduzindo as armas d'Achilles... É esplendido; e é muito raro... Veja você esse Deft, com as duas tulipas amarellas... É um encanto!

Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando o chapéo de sobre o sofá.

- Lindissimo tudo isto!... Então só intenção de lhe arrancar as orelhas? nenhuma de o offender?... - Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume você um charuto. - Não, obrigado...

- Calice de cognac?

- Não! abstenção total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu bom Maia!

- Adeus, meu bom Telles...

Ao outro dia, por uma radiante manhã de julho, Carlos saltava do coupé, com um mólho de chaves, diante do portão da quinta do Craft. Maria Eduarda devia chegar ás dez horas, só, na sua carruagem da Companhia. O hortelão, dispensado por dois dias, fôra a

Villa Franca; não havia ainda criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldêa, em que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos.

Logo depois do portão, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com tecto de madeira, pintado de vermelho, que fôra o capricho de Craft, e que elle mobilára á japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre tres degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de cravos.

(continua...)

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