Por Eça de Queirós (1875)
Então a excelente matrona declarou que não queria acusar ninguém! Ela não fora espreitar. Não sabia o que se passava nas casas alheias. Mas as crianças morriam todas...
- Mas quem vai então entregar uma criança a uma mulher dessas?
A Dionísia sorriu, apiedada daquela inocência de homem.
- Entregam, sim senhor, às dúzias!
Houve um silêncio. O pároco continuava o seu passeio do lavatório para a janela, de cabeça baixa.
- Mas que proveito tira a mulher, se as crianças morrem? perguntou de repente. Perde as soldadas...
- É que se lhe paga um ano de criação adiantado, senhor pároco. A dez tostões ao mês, ou quartinho, segundo as posses...
O pároco, agora encostado à janela, rufava devagar nos vidros.
- Mas que fazem as autoridades, Dionísia?
A boa Dionísia encolheu silenciosamente os ombros.
O pároco então sentou-se, bocejou, e estirando as pernas disse:
- Bem, Dionísia, vejo que a única coisa a fazer é falar à tal ama que vive ao pé da Ricoça, à Joana Carreira. Eu arranjarei isso...
A Dionísia falou ainda nas peças de enxoval que já tinha comprado por conta do pároco, dum berço muito barato em segunda mão que vira no Zé Carpinteiro - e ia sair com a carta para o correio, quando o pároco erguendo-se e galhofando:
- Ó tia Dionísia, essa coisa da tecedeira de anjos é uma história, hem?
Então a Dionísia escandalizou-se. O senhor pároco sabia que ela não era mulher de intrigas. Conhecia a tecedeira de anjos há mais de oito anos, de lhe falar e de a ver na cidade quase todas as semanas. Ainda no sábado passado a vira sair da taberna do Grego... O senhor pároco já tinha ido à Barrosa?
Esperou a resposta do pároco, e continuou:
- Pois bem, sabe o começo da freguesia. Há um muro caído. Depois é um caminho que desce. Ao fundo desse corregozito encontra um poço atulhado. Adiante, retirada, há uma casita que tem um alpendre. É lá que ela vive... Chama-se Carlota... Isto é para lhe mostrar que sei, amiguinho!
O pároco ficou toda a manhã em casa, passeando pelo quarto, alastrando o chão de pontas de cigarros. Ali estava agora diante daquele episódio fatal, que até aí fora apenas um cuidado distante - dispor do filho!
Era bem grave entregá-lo assim a uma ama desconhecida, na aldeia. A mãe, naturalmente, havia de querer ir a todo o momento vê-lo, a ama poderia falar aos vizinhos. O rapaz viria a ser, na freguesia, o filho do pároco... Algum invejoso, que lhe cobiçasse a paróquia, poderia denunciá-lo ao senhor vigáriogeral. Escândalo, sermão, devassa: e, se não fosse suspenso, poderia como o pobre Brito ser mandado para longe, para a serra, outra vez para os pastores... Ah! se o fruto nascesse morto! Que solução natural e perpétua! E para a criança, uma felicidade! Que destino podia ele ter neste duro mundo? Era o enjeitado, era o filho do padre. Ele era pobre, a mãe pobre... O rapaz cresceria na miséria, vadiando, apanhando o estrume das bestas, remeloso e tosco... De necessidade em necessidade iria conhecendo todas as formas do inferno humano: os dias sem pão, as noites regeladas, a brutalidade da taberna, a cadeia por fim. Uma enxerga na vida, uma vala na morte... E se morresse - era um anjinho que Deus recolhia ao Paraíso...
E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o nome era bem posto, tecedeira de anjos... Com razão. Quem prepara uma criança para a vida com o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e para as lágrimas... Mais vale torcer-lhe o pescoço, e mandá-la direita para a eternidade bemaventurada! Olha ele! Que vida a sua, nesses trinta anos atrás! Uma infância melancólica, com aquela pega da marquesa de Alegros; depois a casa na Estrela, com o alarve do tio toucinheiro; e daí as clausuras do seminário, a neve constante de Feirão, e ali em Leiria tantos transes, tantas amarguras... Se lhe tivessem esmagado o crânio ao nascer, estava agora com duas asas brancas, cantando nos coros eternos.
Mas enfim não havia que filosofar: era partir para Poiais e falar à ama, à Sra. Joana Carreira.
Saiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao pé da ponte veio-lhe porém de repente a idéia, a curiosidade de ir à Barrosa ver a tecedeira... Não lhe falaria: examinaria apenas a casa, a figura da mulher, os aspectos sinistros do sítio... Demais como pároco, como autoridade eclesiástica, devia observar aquele pecado organizado num recanto de estrada, impune e rendoso. Podia mesmo denunciá-lo ao senhor vigário-geral ou ao secretário do governo civil...
Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. Por aquela tarde suave e lustrosa fazia-lhe bem um passeio a cavalo. Não hesitou, então; foi alugar uma égua à estalagem do Cruz; e daí a pouco, de espora no pé esquerdo, choutava a direito pelo caminho da Barrosa.
Ao chegar ao córrego, de que lhe falara a Dionísia, apeou, foi andando com a égua pela arreata. A tarde estava admirável; muito alto no azul, uma grande ave fazia semicírculos vagarosos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.