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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Mas não é isso! exclamou ela pálida de indignação. É que há a pensar na criança, na ama, no enxoval... Não é abandonar-me para aqui!...

Ele pôs-se sério, e com um tom ressentido:

- Peço perdão... Eu prezo-me de ser um cavalheiro. Tudo isso há-de ficar arranjado antes de voltar para a Vieira...

- Tu não voltas pra Vieira!

- Quem é que diz isso?

- Eu, que não quero que vás!

Pusera-lhe fortemente as mãos nos ombros, retendo-o, apoderando-se dele: e ali mesmo, sem reparar na porta apenas cerrada, abandonou-se-lhe como outrora.

•••

Dai a dois dias o abade Ferrão apareceu restabelecido do seu ataque de reumatismo. Contou a Amélia a bondade do Morgado, que chegara a mandar-lhe todas as tardes, num aparelho de lata com água quente, uma galinha cozida em arroz. Mas era sobretudo a João Eduardo que devia a caridade melhor; todas as suas horas vagas as passava ao pé da cama, lendo-lhe alto, ajudando-o a voltar, ficando com ele até à uma hora da noite num zelo de enfermeiro. Que rapaz! Que rapaz!

E de repente, tomando as mãos ambas de Amélia, exclamou:

- Diga-me, dá licença que eu lhe conte tudo, que lhe explique?... Que arranje que ele perdoe, e esqueça... E que se faça este casamento, se faça esta felicidade?

Ela balbuciou espantada, toda escarlate:

- Assim de repente... Não sei... Hei-de pensar...

- Pense. E Deus a alumie! disse o velho com fervor.

Era nessa noite que Amaro devia entrar pelo portalzinho do pomar de que Amélia lhe dera a chave. Infelizmente tinham esquecido a matilha do caseiro. E apenas Amaro pôs o pé dentro do pomar rompeu pelo silêncio da noite escura um tão desabrido ladrar de cães - que o senhor pároco abalou pela estrada, batendo o queixo de terror.

XXIII

Amaro nessa manhã mandou à pressa chamar a Dionísia, apenas recebeu o seu correio. Mas a matrona que estava no mercado veio tarde, quando ele à volta da missa acabava de almoçar.

Amaro queria saber ao certo e imediatamente para quando estava a coisa...

- O bom sucesso da pequena?... Entre quinze a vinte dias... Por quê, há novidade?

Havia; e o pároco leu-lhe então em confidência uma carta que tinha ao lado.

Era do cônego, que escrevia da Vieira, dizendo "que a S. Joaneira tinha já trinta banhos e queria voltar! Eu, acrescentava, perco quase todas as semanas três, quatro banhos, de propósito para os espaçar e dar tempo, porque cá a minha mulher já sabe que eu sem os meus cinqüenta não vai. Ora já tenho quarenta, veja lá você. Demais por aqui começa a fazer frio deveras. Já se tem retirado muita gente. Mande-me pois dizer pela volta do correio em que estado estão as coisas". E num post-scriptum dizia: "Tem você pensado que destino se há-de dar ao fruto?"

- Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a Dionísia.

E Amaro ali mesmo escreveu a resposta ao cônego, que a Dionísia devia levar ao correio: "A coisa pode estar pronta daqui a vinte dias. Suspenda por todo o modo a volta da mãe! Isso de modo nenhum! Diga-lhe que a pequena não escreve nem vai, porque a excelentíssima mana passa sempre adoentada".

E traçando a perna:

- E agora, Dionísia, como diz o nosso cônego, que destino se há-de dar ao fruto?

A matrona arregalou os olhos de surpresa:

- Eu pensei que o senhor pároco tinha arranjado tudo... Que se ia dar a criança a criar fora da

terra...

- Está claro, está claro, interrompeu o pároco com impaciência. Se a criança nascer viva é evidente que se há-de dar a criar, e que há-de ser fora da terra... Mas aí é que está! Quem há-de ser a ama? É isso que eu quero que você me arranje. Vai sendo tempo...

A Dionísia pareceu muito embaraçada. Nunca gostara de inculcar amas. Ela conhecia uma boa, mulher forte e de muito leite, pessoa de confiança; mas infelizmente entrara no hospital, doente... Sabia de outra também, até tivera negócios com ela. Era uma Joana Carreira. Mas não convinha porque vivia justamente nos Poiais, ao pé da Ricoça.

- Qual não convém! exclamou o pároco. Que tem que viva na Ricoça?... Em a rapariga convalescendo as senhoras vêm para a cidade, e não se fala mais na Ricoça.

Mas a Dionísia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Também sabia de outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distância... Criava em casa, era o seu ofício... Mas nessa nem falar!

- Mulher fraca, doente?

A Dionísia chegou-se ao pároco, e baixando a voz:

- Ai, menino, eu não gosto de acusar ninguém. Mas, está provado, é uma tecedeira de anjos !

- Uma quê?

- Uma tecedeira de anjos!

- O que é isso? Que significa isso? perguntou o pároco.

A Dionísia gaguejou-lhe uma explicação. Eram mulheres que recebiam crianças a criar em casa. E sem exceção as crianças morriam... Como tinha havido uma muito conhecida que era tecedeira, e as criancinhas iam para o Céu... Daí é que vinha o nome. - Então as crianças morrem sempre?

- Sem falhar.

O pároco passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro.

- Diga lá tudo, Dionísia. As mulheres matam-nas?

(continua...)

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