Por Eça de Queirós (1875)
- Eu não sei, disse a velha com azedume, se os outros - acentuou com rancor a palavra - se os outros não precisam do senhor pároco... Eu é que não estou bem acompanhada, estou aqui a perder a minha alma... Que as companhias que ai vêm não dão honra nem proveito.
Mas Amélia acudiu para contrariar a velha:
- E de mais a mais o Sr. abade Ferrão tem estado doente... Está com reumatismo. Sem ele a casa parece uma prisão.
D. Josefa deu um risinho de escárnio. E o padre Amaro, erguendo- se para sair, lamentou o bom abade.
- Coitado! Santo homem... Hei-de ir vê-lo em tendo vagar. Pois amanhã cá apareço, D. Josefa, e havemos de pôr essa alma em paz... Não se incomode, Sra. D. Amélia, eu sei agora o caminho.
Mas ela insistiu em o acompanhar. Atravessaram o salão sem uma palavra. Amaro calçava as suas luvas novas de pelica preta. E no alto da escada, muito cerimoniosamente, tirando o chapéu:
- Minha senhora...
E Amélia ficou petrificada vendo-o descer muito tranqüilo - como se ela lhe fosse mais indiferente que os dois leões de pedra, que embaixo dormiam com o focinho nas patas.
Foi para o quarto chorar de bruços sobre a cama, de raiva e de humilhação. O infame! E nem uma palavra sobre o filho, sobre a ama, sobre o enxoval! Nem um olhar de interesse para o seu corpo desfigurado por aquela prenhez que ele lhe dera! Nenhuma queixa irritada por todos os desprezos que ela lhe mostrara! Nada! Calçava as luvas, com o chapéu do lado. Que indigno!
Ao outro dia o padre voltou mais cedo. Esteve muito tempo fechado no quarto com a velha.
Amélia, impaciente, rondava no salão com os olhos como carvões. Ele apareceu enfim, como na véspera, calçando as suas luvas com um ar próspero.
- Então já? disse ela numa voz que tremia.
- Já, sim, minha senhora. Estive numa praticazinha com a D. Josefa.
Tirou o chapéu, cumprimentando muito profundamente:
- Minha senhora...
Amélia, lívida, murmurou:
- Infame!
Ele olhou-a, como assombrado:
- Minha senhora... - repetiu.
E, como na véspera, desceu vagarosamente a larga escadaria de pedra.
O primeiro pensamento de Amélia foi denunciá-lo ao vigário-geral. Depois passou a noite escrevendo-lhe uma carta - três páginas de acusações e de lástimas. Mas toda a resposta de Amaro, ao outro dia, mandada verbalmente pelo Joãozito da quinta, foi "que talvez aparecesse por lá na quintafeira".
Teve outra noite de lágrimas - enquanto na Rua das Sousas o padre Amaro esfregava as mãos, no regozijo do seu "famoso estratagema". E todavia não o concebera ele mesmo; tinha-lhe sido sugerido na Vieira, onde fora para desabafar com o padre-mestre e espalhar a mágoa nos ares da praia; fora lá que ele o aprendera, "o famoso estratagema", numa soirée, ouvindo dissertar sobre o amor o brilhante Pinheiro, premiado em direito e glória de Alcobaça.
- Eu nisso, minhas senhoras, dizia o Pinheiro, passando a mão pela cabeleira de poeta, ao semicírculo de damas que pendiam dos seus lábios de ouro - eu nisso sou da opinião de Lamartine (era alternadamente da opinião de Lamartine ou de Pelletan). Digo como Lamartine: a mulher é igual à sombra: se correis atrás dela, foge-vos; se fugis dela, corre atrás de vós!
Houve um muito bem, exclamado com convicção: mas uma senhora de grandes proporções, mãe de quatro deliciosos anjos todos Marias (como dizia o Pinheiro), quis explicações, porque nunca tinha visto fugir uma sombra.
O Pinheiro deu-as, cientificamente:
- É muito fácil de observar, Sra. D. Catarina. Coloque-se vossa excelência na praia, quando o sol começa a declinar, com as costas para o astro. Se vossa excelência caminha em frente, perseguindo a sombra, ela vai-lhe adiante, fugindo...
- Física recreativa, muito interessante! murmurou o escrivão de direito ao ouvido de Amaro.
Mas o pároco não o escutava; bailava-lhe já na imaginação "o famoso estratagema". Ah! mal voltasse a Leiria, havia de tratar Amélia como uma sombra e fugir-lhe para ser seguido... - E o resultado delicioso ali estava - três páginas de paixão, com manchas de lágrimas no papel.
Na quinta-feira apareceu, com efeito. Amélia esperava-o no terraço, donde estivera desde manhã vigiando a estrada com um binóculo de teatro. Correu a abrir-lhe o portãozinho verde no muro do pomar. - Então, por aqui! disse-lhe o pároco, subindo atrás dela ao terraço.
- É verdade, como estou sozinha...
- Sozinha?
- A madrinha está a dormir e a Gertrudes foi à cidade... Tenho estado toda a manhã aqui ao sol. Amaro ia penetrando pela casa, sem responder; diante duma porta aberta parou, vendo um grande leito de dossel, e em redor cadeiras de couro de convento.
- É o seu quarto aqui, hem?
- É.
Ele entrou familiarmente, com o chapéu na cabeça.
- Muito melhor que o da Rua da Misericórdia. E boas vistas... São as terras do Morgado, além...
Amélia cerrara a porta, e indo direita a ele, com os olhos chamejantes: - Por que não respondeste a minha carta?
Ele riu:
- É boa! E por que não respondeste tu às minhas? Quem começou?
Foste tu. Dizes que não queres pecar mais. Também eu não quero pecar mais. Acabou-se...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.