Por Eça de Queirós (1888)
Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em «desvario», despeitado por essa transacção secreta para que não fôra consultado. O que o irritava sobretudo era vêr, n'esta acquisição inesperada de uma casa de campo, outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de Carlos: e havia já duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos ainda não lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligação de rapazes em Coimbra, nos Paços de Cella, fôra elle o confessor secular de Carlos: mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal d'hotel, de que não mandasse ao Ega «um relatorio». O romance com a Gouvarinho, de que Carlos ao principio tentára, frouxamente, guardar um mysterio delicado, já o conhecia todo, já lêra as cartas da Gouvarinho, já passára pela casa da titi...
Mas do outro segredo não sabia nada - e considerava-se ultrajado. Via rodas as manhãs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando flôres; via-o chegar de lá, como elle dizia, «besuntado d'extasi»; via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente amado... E não sabia nada.
Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a fallar de planos de verão, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas das preciosidades do Craft, o dôce socego da casa, a clara vista do Tejo... Aquillo realmente fôra obter por uma mão cheia de libras um pedaço do paraiso...
Era á noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeara com as mãos nas algibeiras do robe-dechambre, encolheu os hombros, impaciente, farto d'aquelles louvores eternos a casinhola do Craft.
- Essa concepção do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoração, os velhos cretones do gabinete, desbotados já por tres barrelas... Um quarto de dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salão confuso como o armazem d'um cara-de-pau, e onde não é possivel conversar... A não ser o armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo é um lixo archeologico... Jesus! o que eu odeio bric-à-brac!
Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como reflectindo:
- Com effeito esses cretones são medonhos... Mas eu vou mandar remobilar, tornar aquillo mais habitavel.
Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos. - Habitavel? Vaes ter hospedes?
- Vou alugar.
- Vaes alugar! A quem?
E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi até ao chão, disse sarcasticamente:
- Peço perdão. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio é sempre um d'esses delicados segredos de sentimento e de honra em que não deve roçar nem a aza da imaginação... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!
Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega - e quasi sentia um remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas as suas outras aventuras as contára ao Ega; e essas confidencias constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto, porém, não era «uma aventura». Ao seu amor misturava-se alguma coisa de religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre a sua fé... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentação de fallar d'ella ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas divinas e confusas que lhe enchiam o coração. Além d'isso, Ega não saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra cigarrette. Justamente o Ega tomára o seu castiçal, e começava a: accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado.
- Não sejas tolo, não te vás deitar, senta-te ahi, disse Carlos.
E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, á entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.
Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sofá. Suppuzera um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo: e agora, só pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino. Imaginára uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sofá, obedecia simplesmente e alegremente á disposição das coisas: e sahia-lhe uma creatura cheia de caracter, cheia de paixão, capaz de sacrificios, capaz de heroismos.
Como sempre, diante d'estas coisas patheticas, murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o bom Ega teve esta pergunta chôcha:
- Então estás decidido a safar-te com ella?
- A safar-me, não; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.