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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Foi por este tempo que D. Josefa, inquieta de não ver aparecer o senhor pároco, mandara expressamente o caseiro a Leiria, pedir a sua senhoria a esmola duma visita. O homem voltara com a espantosa notícia de que o senhor pároco partira para a Vieira, e não viria senão daí a duas semanas. A velha choramigou de desgosto. E Amélia, nessa noite, no seu quarto, não pôde adormecer - na irritação que lhe dava aquela idéia do senhor pároco a divertir-se na Vieira, sem pensar nela decerto, chalaceando com as senhoras na praia, e andando de serão em serão...

•••

Com a primeira semana de Novembro vieram as chuvas. A Ricoça parecia agora mais lúgubre naqueles dias curtos, banhados de água, sob um céu de tempestade. O abade Ferrão, tolhido de reumatismo, já não aparecia na quinta. O doutor Gouveia, depois da visita de meia hora, abalava no seu velho cabriolé. A única distração de Amélia era estar à janela por dentro dos vidros: três vezes vira passar João Eduardo na estrada; mas ele ao avistá-la baixava os olhos ou refugiava-se mais sob o guarda-chuva.

A Dionísia vinha também freqüentemente: devia ser a parteira, apesar do doutor Gouveia ter aconselhado a Micaela, matrona duma experiência de trinta anos. Mas Amélia "não queria mais gente no segredo", e além disso Dionísia trazia-lhe as notícias de Amaro, que ela sabia pela cozinheira. O senhor pároco tinha-se achado tão bem na Vieira que se ia demorar até Dezembro. Aquele "procedimento infame" indignava-a: não duvidava que o pároco queria estar longe quando chegassem os transes, os perigos do parto. Além disso era decidido de há muito que a criança havia de ser entregue a uma ama de ao pé de Ourém, que a criaria na aldeia: c agora o tempo chegava, c a ama não estava falada, e o senhor pároco apanhava conchinhas à beira-mar!...

- É indecente, Dionísia, exclama Amélia furiosa.

- Ah! não me parece bem, não. Que eu podia falar à ama... Mas bem vê, são coisas muito sérias... O senhor pároco é que se encarregou de tudo...

- É infame!

Além disso ela descuidara-se do enxoval - e ali estava na véspera de ter a criança, sem um trapo para a cobrir, sem dinheiro para lho comprar! A Dionísia tinha-lhe mesmo oferecido algumas peças de enxoval, que uma mulher que ela tivera em casa lhe deixara empenhadas. Mas Amélia recusara-se a que o seu filho usasse cueiros alheios, trazendo-lhe talvez um contágio de doença ou uma sorte infeliz.

E por orgulho não queria escrever a Amaro.

Além disso as impertinências da velha tornavam-se odiosas. A pobre D. Josefa, privada dos auxílios devotos dum padre, um verdadeiro padre (não um abade Ferrão), sentia a sua velha alma indefesa exposta a todas as audácias de Satanás: a visão singular que tivera de S. Francisco Xavier nu, repetia-se agora com uma insistência pavorosa a respeito de todos os santos: era toda uma corte do Céu, arrojando túnicas e hábitos, e bailando-lhe na imaginação sarabandas em pêlo: e a velha estava morrendo da perseguição destes espetáculos dispostos pelo demônio. Reclamara o padre Silvério, mas parecia que um reumatismo geral tolhia todo o clero diocesano; desde o princípio do Inverno o Silvério estava também de cama. O abade da Cortegassa, chamado urgentemente, veio - mas para lhe comunicar a receita nova que descobrira de fazer bacalhau à biscainha... Esta falta dum padre virtuoso dava-lhe um humor feroz, que recaia sobre Amélia numa chuva de impertinências.

E a boa senhora estava pensando seriamente em mandar a Amor pelo padre Brito - quando uma tarde, ao fim do jantar, inesperadamente, o senhor pároco apareceu!

Vinha magnífico, trigueiro do sol e do ar do mar, de casaco novo e botins de verniz. E palrando longamente acerca da Vieira, dos conhecidos que estavam, da pesca que fizera, dos soberbos quinos, fazia passar naquele triste quarto de doente velha todo um sopro vivificante da vida divertida à beira-mar. D. Josefa tinha duas lágrimas nas pálpebras do gozo de ver o senhor pároco, de o ouvir.

- E a mamã passa bem, disse ele a Amélia. Já tem os seus trinta banhos. Ganhou outro dia quinze tostões a uma batotinha que se arranjou... E por cá que têm feito?

Então a velha rompeu em queixumes amargos: Uma solidão! Um tempo de chuva! Uma falta de amizades! Ai! ela estava ali a perder a sua alma naquela quinta fatal...

- Pois eu, disse o padre Amaro traçando a perna, dei-me tão bem que estou com idéias de voltar para a semana.

Amélia, sem se conter, exclamou:

- Ora essa! outra vez!

- Sim, disse ele. Se o senhor chantre me der uma licença de um mês, vou lá passá-lo... Fazem-me uma cama na sala de jantar do padre-mestre, e tomo um par de banhos... Estava farto de Leiria, e daquele aborrecimento... '

A velha parecia desolada. O quê, voltar! Deixá-las ali a estarrecer de tristeza!

Ele galhofou:

- Ora, as senhoras não precisam cá de mim. Estão bem acompanhadas...

(continua...)

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