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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu á rua de S. Francisco, a annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjára emfim definitivamente uma linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braços, entrou assim na sala, com ella ao collo, em triumpho. E não se conteve; foi á pequena que deu logo «a grande novidade», annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma cabra, e flôres, e arvores para se balouçar...

- Onde é? Dize, onde é? exclamava Rosa, com os lindos olhos resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.

- D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vêem-se passar os barcos no rio... E entra-se por um grande portão onde ha um cão de fila.

Maria Eduarda appareceu, com Niniche ao collo.

- Mamã, mamã! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouço... É verdade? Dize, deixa vêr, onde é? Dize... E vamos já para lá?

Maria e Carlos apertaram a mão, com um longo olhar, sem uma palavra. E logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, já, n'uma semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca, mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel...

Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada.

- Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa...

- Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! É tal qual como n'um conto de fadas... As luzes estão accêsas, as jarras estão cheias de flôres... É só tomar uma carruagem e chegar.

- Sómente, é necessario saber o que esse paraíso me vae custar...

Carlos fez-se vermelho. Não previra que se fallasse em dinheiro - e que ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Então preferiu confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava desejando desfazer-se das suas collecções, e alugar a

quinta: o avô e elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e das faienças, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de verão, uma residencia graciosa, e tão confortavel...

- Rosa, vai lá para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de silencio... Miss Sarah está á tua espera.

Depois, olhando para Carlos, muito séria:

- De sorte que, se eu não mostrasse desejos de ir para o campo, não tinha feito essa despeza...

- Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para metter as coisas do Craft? O que não fazia talvez era comprar conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos criados, etc...

E acrescentou, rindo:

- Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...

Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.

- Em todo o caso seu avô e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para que eu lá me installasse...

Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E isto inquietou-o - o vêl-a assim retrahir-se áquella absoluta communhão d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coração.

- Não approva então o que fiz? Seja franca...

- Decerto... Como não hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto vem de si? Mas...

Elle acudiu, apoderando-se das suas mãos, sentindo-se triumphar:

- Não ha mas! O avô e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, se fosse possivel que a nossa affeição se

passasse fóra do mundo, distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria delicioso... Mas não pode ser!... Alguem tem de saber sempre alguma coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os tornava invisiveis.

Nós não somos deuses, felizmente...

Ella sorriu.

- Quantas palavras para converter uma convertida!

E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.

Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecções do Craft. «É um valor, disse elle ao Villaça, e acabamos d'encher com boa arte Santa-Olavia e o Ramalhete.»

(continua...)

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