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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

O Domingos entrára com o taboleiro do chá. E emquanto o collocava sobre uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pé da janella, Carlos, erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em começar immediatamente negociações com o Craft,

comprar-lhe as collecções, alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os mezes de verão. E não considerava, n'esse instante, nem as difficuldades, nem o dinheiro. Via só a alegria d'ella passeando com a pequena, entre as bellas arvores do jardim.

E como Maria Eduarda deveria ser mais gramdemente formosa no meio d'esses moveis da Renascença, severos e nobres!

- Muito assucar? perguntou ella.

- Não... Perfeitamente, basta.

Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico serviço que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e côr de fogo. Pobre senhora! tão delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a graça das suas mãos nas coisas reles da mãi Cruges!

- E onde é essa casa? perguntou Maria Eduarda.

- Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se lá n'uma hora de carruagem...

Explicou-lhe detalhadamcnte o sitio,- acrescentando, com os olhos n'ella, e com um sorriso inquieto: - Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fôr para lá installar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a vêr?

Ella pareceu surprehendida:

- Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que não tem quasi nada que fazer?...

Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto d'esta intimidade, tão largamente offerecida, e decerto mais dôce na solidão d'aldêa. Quando acabou a sua chavena de chá -

era como se a casa, os moveis, as arvores fossem já seus, fossem já d'ella. E teve alli um momento delicioso, descrevendo-lhe a quietação da quinta, a entrada por uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas abrindo sobre o rio... Ella escutava-o, encantada:

- Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia d'esperanças... Quando poderei ter uma resposta?

Carlos olhou o relogio. Era já tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na manhã seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo...

- Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei de eu agradecer?...

Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do segredo que ella retinha no seu coração.

Elle murmurou:

- Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez assim. Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.

- Não diga isso...

- E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois não sabe perfeitamente que a adoro, que a adoro, que a adoro!

Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem: - e assim ficaram, mudos, cheios d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma grande alteração no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mãos inquietas e tremulas:

- Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja tarde ha uma coisa que lhe quero dizer...

Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutára, nem a comprehendcra. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido até ahi no seu coração irrompera por fim, triumphante, e embatendo no coração d'ella, através do apparente marmore do seu peito, fizera de lá resaltar uma chamma igual... Só via que ella tremia, só via que ella o amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomoulhe lentamente as mãos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, já sem força, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os dedos, devagar, murmurando apenas:

- Meu amor! meu amor! meu amor!

Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as mãos, erguendo para elle os olhos cheios de paixão, ennevoados de lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicação: - Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...

Carlos estava já ajoelhado aos seus pés.

- Eu sei o que é! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a deixar fallar mais, certo de que adivinhára o seu pensamento. Escusa de dizer, sei perfeitamente. É o que eu tenho pensado tantas vezes! É que um amor como o nosso não póde viver nas condições

em que vivem outros amores vulgares... É que desde que eu lhe digo que a amo, é como se lhe pedisse para ser minha esposa diante de Deus...

Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se não comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mãos d'ella presas, penetrando-a toda da emoção que o fazia tremer:

(continua...)

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