Por Eça de Queirós (1940)
Isto não impede que em Constantinopla a inquietação seja grande. A posição do sultão é terrível; em primeiro lugar, o ex-sultão Murad está inteiramente restabelecido e ocupa-se de política, o que dá aos seus partidários uma esperança e um pretexto para se agitarem. Se o ex-sultão Murad, que foi deposto por doença, está bom, não há razão para que continue excluído do trono que legitimamente lhe pertencia. Daqui uma conspiração perpétua dos seus partidários. Por outro lado, o actual sultão tem apenas um apoio, um amigo – o grão-vizir Redif Paxá. Este apoio decerto é fone: Redif é tudo – e a polícia, é o dinheiro, é o sacerdócio, é a imprensa; tudo domina, tudo influi, de tudo dispõe. Mas os ódios que tem criado são enormes no palácio, mesmo todos os desastres da guerra lhe são atribuídos. Diz-se que há dias se passou na presença do sultão uma cena horrível. Redif Paxá, com uma impudência de intrigante, estava dizendo ao sultão – que tanto na Ásia como no Danúbio tudo ia às mil maravilhas; o irmão do sultão, Nureddin Effendi, que estava presente, ergueu-se como um tigre e gritou-lhe na cara:
– Mentes! Es um infame! E a tua presença aqui é uma vergonha.
Isto deu origem a uma cena medonha. O sultão foi então informado de tudo que ignorava e vivamente solicitado de demitir Redif.
De sorte que o pobre homem vê-se neste dilema pavoroso: se conserva Redif, a indignação cresce e à primeira notícia de derrota há uma revolução; se o demite, perde o seu único apoio, e os amigos do ex-sultão Murad, ex-doente, reclamarão logo a »sua reinstalação no trono.
Tudo isto traz o palácio no ar e Constantinopla num estado de desvario. Como sabem, um dos actos da ditadura de Redif foi a prorrogação do parlamento turco: as câmaras estavam-se tomando um formidável centro de oposição: houve tantos discursos francos e atrevidos na câmara, aprovaram-se tantas ordens do dia, condenando os desperdícios e as desorganizações, houve tantas propostas para julgar os empregados corruptos e os generais idiotas que a corte começou a ver na câmara um inimigo e o povo uma esperança.
Portanto a corte tratou de se desembaraçar das câmaras. Daqui novo descontentamento contra o sultão.
Estes detalhes são importantes, porque eles formam a curiosa história de uma decadência... e é interessante seguir a vida política e social de Constantinopla para estudar como acaba uma dinastia maometana.
No quartel-general russo houve um incidente infeliz. O grão-duque Nicolau, comandante-chefe, recebeu o coronel Wellesley, adido militar inglês, attaché ao exército do Danúbio, com uma descortesia tão manifesta, que Lorde Derby imediata-mente pediu explicações. O czar então recebeu o coronel Wellesley e, pelo seu acolhimento cordial e distinto, apagou a impressão que fez na sociedade inglesa a grosseria do grão-duque. Diz-se a este respeito, à boca pequena, que o coronel Wellesley tem um defeito: não retém as suas pilhérias. Tem espírito e espalha-o. Em Sampetersburgo não se privava, em todos os salões, de fazer as mais malignas observações sobre a Rússia, os Russos e, especialmente, o estado-maior.
Na Rússia, por trás de cada parede está o ouvido da polícia. O imperador soube isto e encarregou o grão-duque de mostrar ao engraçado coronel que os seus ditos eram um pouco deslocados em território russo; ele mesmo, mais tarde, por um acolhimento gentil, dissipou a nuvem que aquela lição pudesse causar em Londres. O coronel fica assim avisado, e tudo serena.
Aqui crê-se geralmente que o Governo inglês pedirá brevemente à câmara um crédito suplementar de cinco milhões para o orçamento da guerra. Isto causa inquietação. Os amigos do Governo tratam de explicar este pedido como uma precaução prudente, semelhante à que se teve no tempo da guerra franco-prussiana.
A independência da Bélgica esteve então ameaçada, e Gladstone pediu à câmara um crédito de alguns milhões, para habilitar o Governo a ocupar Anvers se fosse necessário.
Hoje, diz-se, o canal de Suez pode ser ameaçado e é preciso estar habilitado para fazer uma ocupação imediata. Os inimigos do Governo, porém, afirmam que este crédito é uma visível preparação de intervenção, que tem por fim habilitar Disraeli a levar por diante os seus planos aventurosos de guerra e de conquista. Diz-se que o conselho de ministros em que ele fez este pedido foi tempestuoso; que parte dos seus colegas se opuseram energicamente, e que daqui resultaram graves desinteligências no ministério e um germe de crise próxima.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.