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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Era uma tristeza secreta de Jorge - não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vésperas do casamento, lá sonhava aquela felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias de roscas, e os cabelos anelados, finos como fios de seda; ou rapaz forte, entrando da escola com os livros, alegre e de olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres; ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tranças caídas, vindo pousar as mãos nos seus cabelos já grisalhos...

Vinha-lhe, às vezes, um medo de morrer sem ter tido aquela felicidade completadora!

Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava; depois, no piano, Luísa recomeçou a Mandolinata, com um brio jovial.

A porta do escritório abriu-se, Julião entrou:

- Que estão vocês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até à volta, meu velho, hem? Também ia contigo tomar ar, respirar, ver campos, mas...

E sorriu com amargura. - Àddio! Àddio!

Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçá-lo outra vez. Se quisesse alguma coisa do Alentejo...

Julião carregou o chapéu na cabeça:

- Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dois!

- Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!

Embrulhou-lha num Diário de Notícias; Julião meteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus:

- Cuidado com as sezões, e descobre uma mina de ouro!

Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e Luísa começava uma valsa de Strauss - o Danúbio azul.

Jorge disse, rindo, estendendo os braços:

- Uma valsa, D. Felicidade?

Ela voltou-se, com um sorriso. E por que não? Em nova era falada! Citou logo a valsa que dançara com o senhor D. Fernando, no tempo da Regência, nas Necessidades. Era uma valsa linda, dessa época: A pérola de Ofir.

Estava sentada ao pé do Conselheiro, no sofá. E como retomando um diálogo mais querido continuou, baixo para ele, com uma voz meiga:

- Pois creia, acho-o com ótimas cores.

O Conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de seda da Índia.

- Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?

- Ai! Estou outra, Conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gases... Estou outra!

- Deus o queira, minha senhora, Deus o queira - disse o Conselheiro esfregando lentamente asmãos.

Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôs-se a dizer:

- Espero que esse interesse seja verdadeiro...

Corou. O corpete flácido do vestido de seda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito.

O Conselheiro recaiu lentamente no sofá - e com as mãos nos joelhos:

- D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...

Ela levantou para ele os seus olhos pisados, de onde saíam revelações de paixão e súplicas de felicidade:

- E eu, Conselheiro!...

Deu um grande suspiro, pôs o leque sobre o rosto.

O Conselheiro ergueu-se secamente. E com a cabeça alta, as mãos atrás das costas; foi ao piano, perguntou a Luísa curvando-se:

- É alguma canção do Tirol, D. Luísa?

- Uma valsa de Strauss - murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao ouvido.

- Ah! Muita fama! Grande autor!

Tirou então o relógio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solenidade:

- Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alentejo! O clima é nocivo, a estaçãotraiçoeira!

E apertou-o nos braços com uma pressão comovida. D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.

- Já, D. Felicidade? - disse Luísa.

Ela explicou-lhe, ao ouvido:

- Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas vagens e tenho estado!... E aquelehomem, aquele gelo! O Sr. Ernesto vem para os meus sítios, hem?

- Como um fuso, minha senhora!

Tinha vestido o seu paletó de alpaca clara, fumava chupando, com as faces por uma boquilha enorme, onde uma Vênus se torcia sobre o dorso de um leão domado.

- Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hem? Adeus! Quando for a Honra e Paixão cá mando um camarote à prima Luísa. Adeus! Saudinha!

Iam a sair. Mas o Conselheiro, à porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletó deitadas para trás, a mão pomposamente apoiada no castão de que representava uma cabeça de mouro, disse com gravidade:

- Esquecia-me, Jorge! Tanto em Évora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhedigo por quê: devo-lho como primeiros funcionários do distrito, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinações científicas!

E curvando-se profundamente:

- Al rivedere, como se diz em Itália.

Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco, Luísa foi abrir as janelas; a noite estava quente e imóvel, de luar.

Sebastião pusera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado.

Tocava admiravelmente, com uma compreensão muito fina da música. Outrora compusera mesmo uma meditação, duas valsas, uma balada: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscências, sem estilo. - Da cachimônia não me sai nada - costumava ele dizer com bonomia, batendo na testa, sorrindo - mas lá com os dedos!...

(continua...)

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