Por Eça de Queirós (1870)
Dei a minha palavra.- Bem! — continuou. -Agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu carácter, a sua delicadeza. Ser-me-ia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdém, ou necessidades de vingança. Por isso afirmo-lhe: sou perfei tamente estranho a estesucesso. Mais tarde talvez entregue este caso à polícia. Por ora sou eu polícia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um cárcere. Vejo que o doutor leva daqui a desconfiançade que uma mulher se envolveu neste crime: não o suponha, não podia ser. No entanto, se alguma vez lá fora falar, a respeito deste caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remor so, sem repugnância,naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.
Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os es tores fechados. Não pude ver quem guiava os cavalos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascaradosentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pele era fina, pálida, o cabelo castanho, levemente anelado.A carruagem seguiu um caminho, que pelos acidentes da estra da, pela diferença de velocidade indicando aclives e declives, pelas alternativas de macadame e de calçada, me parecia o mesmo que tínhamos seguido na véspera, no começo da aventura. Rodámosfinalmente na estrada larga.
— Ah, doutor! — dizia o mascarado com desenfado. — Sabe o que me aflige? É que ovou deixar na estrada, só a pé! Não se pô de remediar isto. Mas não se assuste. O Cacém fica a dois passos, e aí encontra facilmente condução para Lisboa.
E ofereceu-me charutos.
Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou. — Chegámos — disse o mascarado. — Adeus, doutor. E abriu por dentro a portinhola.- Obrigado! — acrescentou. — Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permita
Deus que ambos tenhamos no aplau so das nossas consciências e no prazer que dão cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da cena a que assistiu. Re stituolhea mais completa liberdade. Adeus!
Apertámos a mão, eu saltei. Ele fechou a portinhola, abriu os estores e estendendo-mepara fora um pequeno cartão: — Guarde essa lembrança — disse. — É o meu retrato. Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a fotografia avi damente, olhei. O retratoestava também mascarado!
— É um capricho do ano passado, depois de um baile de másca ras! — gritou ele,estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote. Via-a afastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapéu der rubado, uma capa traçada sobre o rosto.Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melanco lia! Aquele trem levava consigo um segredo inexplicável. Nunca mais veria aquele homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo
O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sofá, que lhe servia de sarcófago. Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancólica. Ao longedistinguia ainda o trem. Um camponês apa receu vindo do lado oposto àquele por onde ele desaparecia.
— Onde fica o Cacém?- De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quar to de légua.
A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Sintra.Cheguei ao Cacém fatigado. Mandei um homem a Sintra, à quinta de F..., saber se tinham chegado os cavalos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janela, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as árvores e para os campos. Ha via meia horaque estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavalo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quase indistinto do cavaleiro. Ia para Lisboa embuçado emuma capa alvadia.
Tomei informações a respeito da carruagem que passara na véspera connosco. Havia contradições sobre a cor dos cavalos.Voltou de Sintra o homem que eu ali mandara, dizendo que na quinta de F... tinham sido entregues os cavalos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores, ao pé doCacém, tinham encontrado um amigo que os levar a consigo em uma caleche para Lis boa. Daí a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F... O criado tinha recebido este bilhete a lápis:
Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.