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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Era um homem magro, entalado numa sobrecasaca azul, muito branco de pele, com soberbas suíças dum negro de tinta, e um admirável cabelo lustroso de pomada, apartado até ao cachaço numa risca perfeita.

- Enfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguesia pobre, sem distrações, com um clima horrível...

- Eu meti já requerimento, excelentíssimo senhor, arriscou Amaro timidamente.

- Bem, bem, afirmou o ministro. Há-de arranjar-se, - e mascava o seu charuto.

- É uma justiça, disse o conde. Mais, é uma necessidade! Os homens novos e ativos devem estar nas paróquias difíceis, nas cidades... É claro! Mas não; olhe, lá ao pé da minha quinta, em Alcobaça, há um velho, um gotoso, um padre-mestre antigo, um imbecil!... Assim perde-se a fé.

- É verdade, disse o ministro, mas essas colocações nas boas paróquias devem naturalmente ser recompensas dos bons serviços. É necessário o estímulo...

- Perfeitamente, replicou o conde; mas serviços religiosos, profissionais, serviços à Igreja, não serviços aos governos.

O homem das soberbas suíças negras teve um gesto de objeção.

- Não acha? perguntou-lhe o conde.

- Respeito muito a opinião de vossa excelência, mas se me permite... Sim, digo eu, os párocos na cidade são-nos dum grande serviço nas crises eleitorais. Dum grande serviço!

- Pois sim. Mas...

- Olhe vossa excelência, continuou ele, sôfrego da palavra. Olhe vossa excelência em Tomar. Por que perdemos? Pela atitude dos párocos. Nada mais.

O conde acudiu:

- Mas perdão, não deve ser assim; a religião, o clero não são agentes eleitorais.

- Perdão.., queria interromper o outro.

O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em palavras pausadas, cheias da autoridade dum vasto entendimento:

- A religião, disse ele, pode, deve mesmo auxiliar os governos no seu estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio...

- Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo películas mascadas de charuto.

- Mas descer às intrigas, continuou o conde devagar, aos imbróglios... Perdoe-me meu caro amigo, mas não é dum cristão.

- Pois sou-o, senhor conde, exclamou o homem das suíças soberbas. Sou-o a valer! Mas também sou liberal. E entendo que no governo representativo... Sim, digo eu... com as garantias mais sólidas...

- Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero, e desacredita a política.

- Mas são ou não as maiorias um princípio sagrado? gritava rubro o das suíças, acentuando o adjetivo.

- São um principio respeitável.

- Upa! upa, excelentíssimo senhor! Upa !

O padre Amaro escutava, imóvel.

- Minha mulher há-de querer vê-lo, disse-lhe então o conde. E dirigindo-se a um reposteiro que levantou: - Entre. É o Sr. padre Amaro, Joana!

Era uma sala forrada de papel branco acetinado, com móveis estofados de casimira clara. Nos vãos das janelas, entre as cortinas de pregas largas duma fazenda adamascada cor de leite, apanhadas quase junto do chão por faixas de seda, arbustos delgados, sem flor, erguiam em vasos brancos a sua folhagem fina. Uma meia-luz fresca dava a todas aquelas alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas duma cadeira uma arara empoleirada, firme num só pé negro, coçava vagarosamente, com contrações aduncas, a sua cabeça verde. Amaro, embaraçado, curvou-se logo para um canto do sofá, onde viu os cabelinhos louros e frisados da senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de ouro da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda, sentado diante dela numa cadeira baixa, com os cotovelos sobre os joelhos abertos, ocupava- se em balançar, como um pêndulo, um pincenez de tartaruga. A condessa tinha no regaço uma cadelinha, e com a sua mão seca e fina cheia de veias, acamava-lhe o pêlo branco como algodão.

- Como está, Sr. Amaro? - A cadela rosnou. - Quieta, Jóia. Sabe que já falei no seu negócio?

Quieta, Jóia... O ministro está ali.

- Sim, minha senhora, disse Amaro, de pé.

- Sente-se aqui, Sr. padre Amaro.

Amaro pousou-se à beira dum fauteuil, com o seu guarda-sol na mão, - e reparou então numa senhora alta que estava de pé, junto do piano, falando com um rapaz louro.

- Que tem feito estes dias, Amaro? disse a condessa. Diga-me uma coisa: sua irmã?

- Está em Coimbra, casou.

- Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anéis.

Houve um silêncio. Amaro, de olhos baixos, passava, com um gesto embaraçado e errante, os dedos pelos beiços.

- O Sr. padre Liset está para fora? perguntou.

- Está em Nantes. Tinha uma irmã a morrer, disse a condessa. - Está o mesmo sempre: muito amável, muito doce. É a alma mais virtuosa!...

- Eu prefiro o padre Félix, disse o rapaz gordo, estirando as pemas.

- Não diga isso, primo! Jesus, brada aos Céus! Pois então, o padre Liset, tão respeitável!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma bondade... Vê-se que é um coração delicado... ' - Pois sim, mas o padre Félix...

(continua...)

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