Por Eça de Queirós (1925)
Tinha-se erguido, a sua voz fortalecia-se, e o seu sentimento de amigo traído dava-lhe ao tom agora uma dignidade, uma solenidade que esmagava o outro. Então falou baixo, atirando-lhe as palavras, como punhaladas. Conhecera-o de pequeno; fora ele que o protegera no seu começo da vida; tinha-o feito seu sócio, seu amigo, quase seu irmão. Abria-lhe as portas de sua casa, recebia-o lá, como um irmão.
— E pelas minhas costas, o senhor que faz, desonra-me!
O outro erguer-se, com a face angustiosa, querendo acabar aquela tortura.
— Sei tudo isso – balbuciou, estou pronto a dar-lhe todas as reparações, todas, quaisquer que sejam.
Então Godofredo, exaltado, atirou a sua idéia:
— A reparação é só esta! Um de nós tem de morrer... Um duelo é absurdo.... Tiramos à sorte qual de nós se há-de-matar.
Aquelas palavras patéticas, apenas as soltara, tinham-lhe aparecido como sons estranhos e desconexos: os mesmos móveis as pareciam repelir... mas soltaraas, essas palavras; sentia um alívio, tendo enfim desembaraçado a alma daquilo que desde a véspera lha enchia de perturbação e de tormento.
Machado ficara a olhar para ele com os olhos esgazeados.
— Tirar à sorte! Como tirar à sorte?
Parecia não compreender. Aquele suicídio, tirado à sorte, parecia alguma coisa de grotesco e de doido.
Como Godofredo continuasse de pé, junto da carteira, sem dizer nada, mexendo no bigode, impacientou-se, exclamou:
— Isso é sério? Isso é dito a sério?
Foi então Godofredo que o olhou interdito. O que ele receara realizava-se. Machado achava aquilo absurdo, recusava. Então a sua cólera cresceu, como se visse fugir-lhe a vingança.
— Já ontem o senhor fugiu, quando o apanhei, fugiu covardemente. Agora quer fugir disto também.
O outro gritou, lívido:
— Fugir a quê?
Uma cólera surda invadia-o, acendia-lhe o olho. Todas as acusações do outro o tinham exasperado. Depois vinha aquela proposta absurda dum suicídio à sorte. Agora insultava-o . Não, isso não toleraria. Balbuciou, já excitado:
— Fugir de quê – repetiu, fugir de que? Eu não fujo de nada...
— Então – disse Godofredo, batendo com a mão na secretária, já aqui, tiramos à sorte quem de nós há-de desaparecer!
O outro encarou-o um momento, como se o fosse esganar. Depois agarrou vivamente o chapéu e a bengala. E numa voz mordente, decidida, que vibrava:
— Eu estou pronto a dar-lhe todas as reparações, e com todo o meu sangue... Mas há-de ser dum modo sensato, regular, com quatro testemunhas, à espada ou à pistola, como quiser, a que distância quiser, um duelo de morte, tudo o que quiser. Estou às sua ordens. Hoje todo o dia, amanhã todo o dia, lá espero, em minha casa. Mas com idéias de doido não me entendo. E não temos mais que conversar...
Atirou o batente, os seus passos furiosos soaram um momento fora, e tudo recaiu num grande silêncio. Godofredo ficava só, com as lamentáveis ruínas daquela sua grande idéia, humilhado, confuso, encavacado, com as fontes a latejarem-lhe, sem saber o que havia de fazer.
CAPÍTULO VI
Por fim, tal qual como fizera o Machado, agarrou vivamente o chapéu e abalou do escritório. E tão estonteado is que foi já na rua do Ouro que se lembrou que não fechara a porta à chave; voltou atrás, e isto pareceu pôr alguma ordem nas suas idéias. Agora estava decidido a bater-se com ele, num duelo de morte, e nenhuma coisa no mundo parecia dever satisfazê-lo, senão vê-lo aos seus pés, com uma bala no coração. Pois que! Aquele homem desonra-o, rouba-lhe o amor da sua mulher, e agora, ainda pôr cima, trata-o como um insensato, chama-lhe de doido! E isto enfurecia-o sobretudo, porque ele agora sentia vagamente que naquela idéia do suicídio à sorte havia alguma coisa de insensato! Talvez houvesse! Mas o outro não lho devia dizer, devia aceitar tudo, resignar-se à reparação que ele exigisse! Não quisera, reclamava uma reparação dum modo regular e sensato. Pois bem, assim seria, bater-se-iam à pistola, com uma só pistola carregada tirada ao acaso, apontada à distância dum lenço! Era ainda o acaso, era ainda a sorte, era deixar tudo à mão justa de Deus.
No entanto, dirigira-se rapidamente para o Rossio. O seu amigo íntimo, o Carvalho, aquele que fora diretor da Alfândega de Cabo Verde e que casara rico, morava lá; e era ele o primeiro a quem se dirigia, a contar-lhe tudo, a entregar-se à sua velha amizade; depois iria procurar o outro dos seus grandes amigos, o Teles Medeiros, homem de fortuna e de sociedade, que tinha panóplias de floretes na sala, e a experiência do ponto de honra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.