Por Eça de Queirós (1900)
- Você acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute! Em todo o distrito de Oliveira, note bem, emtodo ele! não há ninguém, absolutamente ninguém, que de longe, muito de longe, se compare ao Cavaleiro em inteligência, caráter, maneiras, saber, e finura política!
O Fidalgo da Torre emudeceu, varado. Por fim sacudindo o braço, num desabrido, arrogante desprezo:
- Isso são as opiniões dum subalterno!
- E isso são as expressões dum malcriado! - uivou o outro, crescendo todo, com os olhinhosesbugalhados a fuzilar.
Imediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avançou o braço do Titó, estendendo uma sombra na calçada:
- Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este? Vocês estão borrachos?... Pois tu, Gonçalo...
Mas já Gonçalo, num desses seus impulsos generosos e amoráveis que tão finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilizado:
- Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que você defende o Cavaleiro por amizade, nãopor dependência... Mas que quer, homem? Quando me falam nesse Cavalo... Não sei, é por contágio da besta, orneio, atiro coice!
O Gouveia. sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte à sobrecasaca e apenas observou "que o Gonçalinho era uma flor, mas picava..." Depois, aproveitando a emoção submissa de Gonçalo. recomeçou a glorificação do Cavaleiro, mais sóbria. Reconhecia certas fraquezas: Sim, com efeito, aquele modo empertigado... Mas que coração! - E o Gonçalinho devia considerar...
O Fidalgo, de novo revoltado. recuou, espalmando as mãos:
- Escute você. oh João Gouveia! Por que é que você lá em cima. á ceia, não comeu a salada depepino? Estava divina. até o Videirinha a apeteceu! Eu repeti. acabei a travessa... Por que foi? Porque você tem horror fisiológico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o pepino são incompatíveis. Não há raciocínios, não há sutilezas, que o persuadam a admitir lá dentro o pepino. Você não duvida que ele seja excelente. Desde que tanta gente de bem o adora: mas você não pode... Pois eu estou para o Cavaleiro como você para o pepino. Não posso! Não há molhos. nem razões, que mo disfarcem. Para mim é ascoroso. Não vai! Vomito!... E agora ouça. Então Titó. que bocejava, interveio, já farto:
- Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dose de Cavaleiro, e valente! Somos todos muitoboas pessoas e só nos resta debandar. Eu tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a madrugada. que vergonha!
O Administrador pulou. Oh diabo! E ele. às nove horas da manhã, com comissão de recenseamento!... Para esmagar bem o amuo, cingiu Gonçalo num rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha (que nestas noites festivas de Vila-Clara o acompanhava sempre pela estrada até o portão da Torre), João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral "de não sei que filósofo":
- "Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má política..." Creio que é de Aristóteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados arpejos:
- Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não vale a pena, porque em Política hoje é branco, amanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.