Por Camilo Castelo Branco (1869)
Ângela ouvia em silencio e lagrimosa as invectivas da velha, cortadas de frouxos nervoso. De súbito, D. Beatriz, circunvagando pelo sobrado o olho direito armado da luneta, exclamou:
― Que é da carta que eu tinha aqui? Que é da carta?
― Aqui está – disse mansamente Ângela, apresentando-lha.
― Querias lê-la, não é assim?! – gritou a velha, tirando-lha da mão com arremesso. – Vai perguntar à criada que ma trouxe se ela quereria casar com o Francisco da Joana...
E, abrindo-a em tremuras de raiva, pôs a luneta e bradou:
― Tu!... Olha isto, filha de Simão de Noronha! Tu... O neto do cozinheiro dá tu à filha do décimo oitavo senhor do paço de Gondar!... Não te envergonhas, Ângela!... Consentiste em semelhante insulto a tua mãe, que era das mais distintas famílias de Portugal?
Como a filha de Maria d’Antas não respondesse, D. Beatriz gesticulou de ombros e cabeça em ar de assombrada, repôs a luneta no olho fundo e mirrado, e leu mentalmente, fazendo esgares com os queixos, ao passo que um novo tu lhe descompunha o aparelho nervoso. Muito é, porém, de notar-se que da leitura da segunda página em diante o rosto da velha denotava espanto sem ira, sem carrancas, sem intermitências de suspiros e ais. Um período especialmente a impressionou de feição que voltou terceira vez a lê-lo, compassando o entendimento de cada frase com um gesto afirmativo de cabeça. A passagem dizia assim:
“Não nos iludamos, minha boa amiga. Pode ser que Deus aproximasse as nossas almas; pode ser; mas, se elas houverem de se encontrar e unir, há de ser na presença de quem as criou, - no céu. Neste mundo, é impossível; e, se fosse possível, a sociedade te obrigaria a chorar rios de lágrimas, e eu mesmo chegaria a sentir o tormento do remorso por ter assassinado as alegrias do teu destino, e destruído as modestas aspirações do meu. Desde que comecei a adorar o que em ti há divino, nem uma hora só entrou em minha alma o pensamento de te ver minha esposa. Era escusado que minha boa irmã estivesse sempre a medir a distância que nos separa. Bem viste que eu ta mostrei na segunda carta que te escrevi; e Deus sabe que eu chorava quando parecia rir da humildade de meu pai, que era um respeitável velho muito pobre, muito resignado, e muito feliz. A grande herança que ele me deixou foi a certeza de que há pobres felizes. Conheço que minha mocidade já não vai encaminhada pela trilha da de meu pai. Ele ignorava tudo, exceto os artigos da fé que atam as tristezas transitórias desta vida aos eternos contentamentos doutra: eu estudo há seis anos, penso e aflijo-me em terríveis dúvidas; e, se creio nalguma coisa santa, é porque comparo a felicidade de meu ignorante pai com as dolorosas inquietações do meu espírito. Mas a ti que importa isto, minha adorada amiga? Que impertinentes cartas te escrevi nestas noites tão compridas e veladas! E que pesar me fica se elas te enfadam, cuidando eu que tens lá também noites sem dormir, e amizade bastante para aceitar as confidências do pobre solitário!...”
D. Beatriz deixou cair o braço que sustinha o papel, desarmou o olho cansado, e perguntou: ― Ele é quem ditou isto?
― Isto quê, minha tia?
― Esta carta... Não creio que ele saiba dizer estas coisas... Não pode ser... Alguém lhe faz as cartas... Nada... O Francisco da Joana, com aquela cara de bruto que tem, não ideava assim umas idéias tão discretas. Aqui anda sancadilha armada à tua inocência, Ângela. Há velhaco escondido neste negócio!... Sabes o que é, tola?... O rapaz pensa que te prende com a confissão da sua humildade. Pouco mais ou menos aconteceu isso comigo, quando eu era da tua idade; e mais o meu pretendente era um doutor, filho do juiz de fora de Ponte. Também me veio com estas cantigas da desigualdade dos nossos nascimentos; e eu, a falar-te verdade, ia-me deixando levar, e não sei onde chegaria a minha loucura, se teu avô do pé p’rá mão não me escolhe marido conveniente. Casei, e daí a quinze dias já nem me lembrava o outro; só quando o vi passados anos, muito gordo e nédio, é que me lembrei do palavreado dele. (D. Beatriz contava o caso expedindo uns espirros de riso gosmento). Dizia o velhacório que o seu último dia seria aquele em que me visse ligada a outro coração; e, ainda na véspera de me casar, me fez verter grossas bagadas sobre o papel em que me escrevia que o sangue lhe saía em borbotões pela boca. Depois, quando o vi muito barrigudo, casado com outra barriguda de feitio e da casta dele, pegou-me uma vontade de rir, que ainda agora não posso ter mão que me não doam as ilhargas!...
E casquinava de modo a humorística velhinha que Ângela ria também do irresistível grotesco de sua tia recordando tão comicamente os seus virginais amores.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.