Por Eça de Queirós (1888)
- E trouxe-me uns grillos da Praça! O Domingos trouxe-me uns grillos... Se tu soubesses! Niniche tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein? Eu nunca vi ninguem mais medrosa...
Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:
- É a mamã que lhe dá tanto mimo. É uma pena!
Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e, ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem é que ella estragava com mimo... Niniche? Pobre Niniche, coitada, ainda essa manhã fôra castigada!
Então Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mãos:
- Sabes como a mamã a castiga? exclamava ella, puxando a manga de Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: Bad dog! dreadful dog!
Era encantadora assim, imitando a voz severa da mamã, com o dedinho erguido, a ameaçar Niniche. A pobre Niniche, imaginando com effeito que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sofá. E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de
joelhos sobre a pelle de tigre, jurando-lhe, por entre abraços, que ella nem era mau cão, nem feio cão; fôra só para contar como fazia a mamã...
- Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sêde, disse então Maria Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que nos traga o chá.
Rosa e Niniche partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado;
e Carlos permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto, apenas houvesse significação n'uma certa palavra de que os seus labios estavam cheios e que não ousavam murmurar, que quasi receava que fosse adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coração.
- Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim, impaciente de a vêr, tão serena, a occupar-se das suas lãs.
Com a talagarça desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer os olhos:
- E para que se ha de acabar? O grande prazer é andal-o a fazer, pois não acha? Uma malha hoje, outra malha ámanhã, torna-se assim uma companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?
Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allusão ao seu amor, - esse amor que lhe fôra enchendo o coração á maneira que a lã cobria aquella talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado, sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da costura, para ser o desafogo da sua solidão?
Disse-lhe então, commovido:
- Não é assim. Ha coisas que só existem quando se completam, e que só então dão a felicidade que se procurava n'ellas.
- É muito complicado isso, murmurou ella, córando. É muito subtil...
- Quer que lh'o diga mais claramente?
N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava alli o snr. Damaso... Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:
- Diga que não recebo!
Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.
- Ahi está outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, é demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi todos os dias este assalto á minha porta! É intoleravel.
E com uma subita idéa, atirando o bordado para o açafate, cruzando as mãos sobre os joelhos:
- Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não me seria possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse passar os mezes de verão?... Era tão bom para a pequena! Mas não conheço ninguem, não sei a quem me hei de dirigir...
Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes - como já n'outra occasião em que ella mostrára desejos d'ir para o campo. Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltára a fallar, e mais decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das
suas collecções. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre, condizendo tão bem com os seus gostos! Uma tentação atravessou-o, irresistivel.
- Eu sei com effeito d'uma casa... E tão bem situada, que lhe convinha tanto!... - Que se aluga?
Carlos não hesitou:
- Sim, é possivel arranjar-se...
- Isso era um encanto!
Ella tinha dito - «era um encanto». E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe desamoravel e mesquinho o terlhe suggerido uma esperança, e não lh'a realisar com fervor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.