Por Eça de Queirós (1878)
- Sou o parente, sou.
- Então não sabe?
- O quê, homem de Deus?
O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça:
- Pois sinto dizer-lho. A senhora morreu.
- Que senhora? - perguntou Basílio. E fez-se muito branco.
- A senhora! A senhora D. Luísa, a mulher do Sr. Carvalho, o Engenheiro... E o Sr. Jorge estáem casa do Sr. Sebastião. Ali ao fim da rua. Se Vossa Senhoria lá quer ir...
- Não! - fez Basílio com um gesto rápido da mão. Os beiços tremiam-lhe um pouco. - Mas quefoi?
- Uma febre! Rapou-a em dois dias!
Basílio dirigiu-se ao cupê devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéus bateu para a Baixa.
O Paula então aproximou-se do estanque:
- Não lhe fez muita mossa! Fidalgos! Canalha! - murmurou.
A estanqueira disse lamentosamente:
- Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dois padre-nossos por alma...
- E eu! - suspirou a carvoeira.
- Há de lhe isso servir de muito! - rosnou o Paula, afastando-se.
Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquelas mortes na rua traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! E todas as noites lia a Nação que lhe emprestava o Azevedo, repastando-se com rancor de artigos devotos que o exasperavam, o impeliam para o ateísmo; e o descontentamento das coisas públicas inclinava-o para a comuna. Como ele dizia, achava tudo uma porcaria.
Foi decerto sob este sentimento que, voltando-se à porta do estanque, disse às vizinhas com um ar lúgubre:
- Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é? - Fazia um gesto que abrangia o Universo.Fitou-as de um modo irado, e rosnou esta palavra suprema:
- Um monte de estrume!
Ao descer a Rua do Alecrim, Basílio viu o Visconde Reinaldo à porta do Hotel Street. Mandou parar o Pintéus, e saltando do cupê:
- Sabes?
- O quê?
- Minha prima morreu.
O Visconde Reinaldo murmurou polidamente:
- Coitada!...
E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava glorioso; um friozinho sutil errava; no ar luminoso, leve, trespassado de sol, as casas, os galhos das árvores, os mastros das faluas, as mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons sobressaíam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a cor do leite; e ao fundo as colinas faziam na pulverização da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.
E os dois, passeando devagar, iam falando de Luísa.
O Visconde Reinaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo! - Mas em resumo, sempre achara aquela ligação absurda...
Porque enfim fossem francos: que tinha ela? Não queria dizer mal da pobre senhora que estava naquele horror dos Prazeres, mas a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toalete... que diabo! Era um trambolho!
- Para um ou dois meses que eu estivesse em Lisboa... - resmungou Basílio com a cabeçabaixa.
- Sim, para isso talvez. Como higiene! - disse Reinaldo com desdém.
E continuaram calados, devagar. Riram-se muito de um sujeito que passava governando atarantadamente dois cavalos pretos: - Que faéton! Que arreios! Que estilo! Só em Lisboa!...
Ao fundo do Aterro voltaram; e o Visconde Reinaldo passando os dedos pelas suíças:
- De modo que estás sem mulher...
Basílio teve um sorriso resignado. E, depois de um silêncio, dando um forte raspão no chão com a bengala:
- Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! E foram tomar xerez à Taverna Inglesa.
Setembro de 1876 - Setembro de 1877.
"O PRIMO BASÍLIO"
(CARTA A TEÓFILO BRAGA)
Newcastle, 12 de março de 1878.
Meu caro Teófllo Braga.
E de você que tenho recebido, depois das minhas duas tentativas de arte, as cartas mais animadoras e mais recompensadoras. E você, como o nosso belo e grande Ramalho, que mais me tem empurrado pra diante. Eu nunca respondi à sua excelente carta sobre o Padre Amaro; contava então ir a Lisboa, e lá conversar largamente consigo; o homem propõe, a ocasião dispõe - e as poucas semanas, que aí estive passaram, sem nos encontrarmos. Talvez você imaginasse que a sua carta de então me tinha passado sobre o espírito como água sobre gutapercha. Está bem enganado: embebi-me dela. Ela deu-me valor e arranque para me atirar ao Primo Basílio - com a consolação de que vale a pena escrever um livro quando se tem um leitor como você.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.