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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Um criado alemão, que conversava embaixo com o porteiro, reconheceu-os logo, e tirando o coco:

- Oh, senhor D. Basílio! Oh, senhor visconde!

O Visconde Reinaldo, que batia os pés nas lajes, rosnou de dentro da sua peliça:

- É verdade, aqui estamos outra vez na pocilga!

Mas àquela hora?

- A que horas queria você que chegássemos? Às horas da tabela, talvez! Doze horas de atraso,essa bagatela! Em Portugal é quase nada...

- Houve algum transtorno? - perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela escada.

E Reinaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:

- O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjeto país!... - E desabafava a sua cólera com o criado: tê-la-ia desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bílis: - Há um ano que a minha oração é esta: "Meu Deus, manda-lhe outra vez o terramoto!" Pois todos os dias leio os telegramas a ver se o terramoto chegou... e nada! Algum ministro que cai, ou algum barão que surge. E de terramoto nada! O Onipotente faz ouvidos de mercador às minhas preces... Protege o país! Tão bom é um como outro! - E sorria, vagamente reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilhérias.

Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou - que não havia senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro andar - a cólera de Reinaldo não conheceu restrições:

- Então havemos de dormir no mesmo quarto? Você pensa que o senhor D. Basílio é meuamante, seu devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me espanta! - E encolhendo os ombros com rancor: - É o clima, é o clima que os atrai! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima pestífero. Não há nada mais reles de que um bom clima!...

E não cessou de invectivar o seu país, enquanto o criado à pressa, sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um frango frio e borgonha.

Reinaldo vinha vender a última propriedade, e acompanhara Basílio que voltava a terminar "o secante negócio da borracha". E não cessava de rosnar soturnamente de dentro da peliça:

- Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro!

Basílio não respondia. Desde que chegara a Santa Apolônia, recordações do Paraíso, da casa de Luísa, de todo aquele romance do verão passado, começavam a voltar, a atrai-lo, com um encanto picante. Fora encostar-se à vidraça. Uma lua fria, lívida, corria agora entre grossas nuvens cor de chumbo; às vezes uma grande malha luminosa caía sobre a água, faiscava; depois tudo escurecia; vagas mastreações desenhavam-se na obscuridade difusa; e algum fanal de navio tremeluzia friamente.

"Que fará ela a esta hora!" - pensava Basílio. - naturalmente, deitava-se... Mal sabia que ele estava ali, num quarto do Hotel Central...

Cearam.

Basílio levou a garrafinha de conhaque para a cabeceira da cama; e com a cara coberta de póde-arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma lassidão confortável.

- E amanhã estou-te daqui a ver - disse Reinaldo. - Vai-te logo meter com a prima!

Basílio sorriu; o seu olhar errou um pouco pelo teto; certas recordações das belezas dela, do seu temperamento amoroso, trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade; espreguiçou-se. - Que diabo! - disse - é uma linda rapariga! Vale imenso a pena! - Bebeu mais um cálice de conhaque, e daí a pouco dormia profundamente. Era meia-noite.

Àquela hora Jorge acordava, e sentado numa cadeira, imóvel, com soluços cansados que ainda o sacudiam, pensava nela. Sebastião, no seu quarto, chorava baixo. Julião, no posto médico, estendido num sofá, lia a Revista dos Dois Mundos. Leopoldina dançava numa soirée da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as nuvens e agitava o gás dos candeeiros ia fazer ramalhar tristemente uma árvore sobre a sepultura de Luísa.

Daí a dois dias pela manhã Basílio, no Rossio, procurava, com o olhar em redor, um cupê decente. Mas o Pintéus, avistando-o de longe, lançou logo a parelha.

- Cá está o Pintéus, meu amo! - Parecia encantado de tornar a ver o senhor D. Basilinho, eapenas ele lhe disse:

- Lá acima, à Patriarcal, ó Pintéus!

- À casa da senhora? Pronto, meu amo. - E endireitando-se na almofada, bateu.

Quando a tipóia parou à porta de Jorge - o Paula saiu para a rua, a estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se logo na janela. E imóveis arregalavam os olhos.

Basílio tocara a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o charuto, tomou a puxar o cordão com força.

- As janelas estão trancadas, meu amo - disse o Pintéus.

Basílio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a casa tinha um aspecto mudo.

Basílio dirigiu-se ao Paula:

- Os senhores que ali moram, estão para fora?

- Já não moram - disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o bigode.

Basílio fixou-o, surpreendido daquela entonação fúnebre.

- Onde vivem agora então?

O Paula escarrou, e cravou em Basílio um olhar desolado:

- Vossa Senhoria é o parente?

Basílio disse sorrindo.

(continua...)

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