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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Bem, bem, minha senhora, é resignar-se e tratar de ver tudo cor-de-rosa. É o sentimento que Deus mais aprecia. Eu compreendo que é duro estar para aqui enterrada...

- É o que diz o Sr. abade Ferrão, acudiu Amélia voltando da janela, a madrinha estranha... Assim arrancada aos hábitos de tantos anos...

Notando então a citação repetida das palavras do abade Ferrão, Amaro perguntou se ele costumava vir vêlas.

- Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amélia. Vem quase todos os dias.

- É um santo! exclamou a Gertrudes.

- Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente dum entusiasmo tão vivo. Pessoa de muita virtude...

- De muita virtude, suspirou a velha. Mas... - calou-se, não ousando decerto exprimir as suas reservas de devota. E exclamou numa súplica: Ai, o senhor pároco é que devia vir por aqui, ajudar-me a levar esta cruz da doença...

- Hei-de vir, minha senhora, hei-de vir. É bom para a distrair, para lhe dar as noticias... E a propósito, tive ontem carta do nosso cônego.

Rebuscou na algibeira, leu alguns períodos da carta. O padre-mestre já tinha quinze banhos. A praia estava cheia de gente. A D. Maria passara doente com um furúnculo. O tempo famoso. Todas as tardes grandes passeatas a ver recolher as redes. A S. Joaneira, boa, mas falando sempre na filha...

- Pobre mamã... choramigou Amélia.

Mas a velha não se interessava com as novidades, gemendo a sua ronqueira. Foi Amélia que perguntou pelos amigos de Leiria, pelo Sr, padre Natário, pelo Sr, padre Silvério...

Ia escurecendo já: a Gertrudes fora preparar o candeeiro. Amaro enfim ergueu-se:

- Pois, minha senhora, até outro dia. Esteja certa que hei-de aparecer de vez em quando. E nada de afligir... Agasalho, boa dieta, e a misericórdia de Deus não a há-de abandonar...

- Não nos falte, senhor pároco, não nos falte!...

Amélia estendera-lhe a mão, para se despedir ali no quarto; mas Amaro gracejando:

- Se não lhe causa incômodo, menina Amélia, sempre é bom vir mostrar-me o caminho, que eu perco-me neste casarão.

Saíram ambos. E apenas no salão, a que as três largas vidraças davam ainda uma claridade:

- A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro parando.

- Que mereço eu mais? respondeu ela baixando os olhos.

- Desavergonhada, eu lhas cantarei!... Minha Ameliazinha, se soubesses o que me tem custado... E falando, ia abraçá-la pelo pescoço.

Mas ela recuou, toda perturbada.

- Que é isso? fez Amaro assombrado.

- O quê?

- Esse modo! Tu não me queres dar um beijo, Amélia? Tu estás doida?

Ela ergueu as mãos para ele, numa suplicação ansiosa, falando toda trêmula:

- Não, senhor pároco, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que pecamos... Quero morrer na graça de Deus... Que nunca mais se fale em semelhante coisa!... Foi uma desgraça... Acabou-se... Agora o que quero é o sossego da minha alma...

- Tu estás tola? Quem te meteu isso na cabeça? Ouve cá...

Foi para ela outra vez, com os abraços abertos.

- Não me toque, pelo amor de Deus, - e vivamente recuou até à porta.

Ele olhou-a um momento, numa cólera muda.

- Bem, como queira, disse por fim. Em todo o caso, quero preveni- Ia que o João Eduardo voltou, que passa aqui todos os dias, e que é bom não se pôr de janela.

- Que me importa a mim o João Eduardo e os outros e tudo o que passou?...

Ele acudiu, transbordando dum sarcasmo amargo:

- Está claro, agora o grande homem é o Sr. abade Ferrão!

- Devo-lhe muito, é o que sei...

A Gertrudes neste momento entrava com o candeeiro aceso. E Amaro, sem se despedir de Amélia, abalou, de guarda-chuva em riste, rilhando os dentes de raiva.

•••

Mas a longa caminhada até à cidade calmou-o. Aquilo na rapariga por fim era apenas um acesso de virtude e de escrúpulos! Vira-se ali só naquele casarão, amargurada pela velha, impressionada pelos palavrões do moralista Ferrão, longe dele, e tinha-lhe vindo aquela reação de devota com os seus terrores do outro mundo e apetites de inocência... Chalaça! Se ele começasse a ir à Ricoça, numa semana reganhava todo o seu domínio... Ah, conhecia-a bem! Era só tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava logo rendida.

Passou porém uma noite inquieta, desejando-a mais que nunca. E ao outro dia à uma hora marchou para Ricoça, levando-lhe um ramo de rosas.

A velha ficou toda contente ao vê-lo. É que lhe dava saúde a presença do senhor pároco! E se não fosse a distância, havia de lhe pedir esmola de vir todas as manhãs. Até depois daquela visitinha rezava com mais fervor...

Amaro sorria, distraído, com os olhos cravados na porta.

- E a menina Amélia? perguntou por fim.

- Saiu... Isso agora todas as manhãs é a passeata, disse a velha com azedume. Vai à residência, é toda do abade...

- Ah! fez Amaro com um sorriso lívido. Nova devoção, hem?... é pessoa de muitos méritos, o abade.

- Ai, não presta, não presta! exclamou D. Josefa. Não me percebe. Tem idéias muito esquisitas. Não dá virtude...

- Homem de livros... disse Amaro.

Mas a velha erguera-se sobre o cotovelo, e baixando a voz, com o magro carão aceso em ódio:

(continua...)

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