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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Tinham subido ao terraço, falando assim: e Amélia sentara-se fatigada num dos bancos de pedra que ali havia, e ficara a olhar a quinta ao longe, os tetos dos currais, a longa rua de loureiros, a eira, e a distância os campos que se sucediam planos e avivados do tom úmido que lhes dera a chuva ligeira da manhã: agora a tarde estava de uma placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava de vivos cor-de-rosa tenro... Pensava naquelas palavras tão sensatas do abade, no descanso que gozaria se cada pecado que lhe pesava na alma como um penedo se tomasse ligeiro e se dissipasse sob a ação da penitência. E vinham-lhe desejos de paz, dum repouso igual à quietação dos campos que se estendiam diante dela.

Um pássaro cantou, depois calou-se; e recomeçou dai a um momento com um trinado tão vibrante, tão alegre, que Amélia sorria, escutando-o.

- É um rouxinol...

- Os rouxinóis não cantam a esta hora, disse o abade. É um melro... Aí está um que não tem medo de fantasmas, nem ouve vozes... Olhe que entusiasmo, o maganão!

Era com efeito um gorjear triunfante, um delírio de melro feliz, que dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.

E Amélia, diante daquele chilrear glorioso dum pássaro contente, subitamente, sem razão, num destes abalos nervosos que vêm às mulheres histéricas, rompeu a chorar.

- Então, que é isso, que é isso? fez o abade muito surpreendido.

Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho e de amigo, calmando-a.

- Que infeliz que sou!.., murmurou ela aos soluços.

Ele então muito paternal:

- Não tem razão para o ser... Sejam quais forem as aflições, as inquietações, uma alma cristã tem sempre a consolação à mão... Não há pecado que Deus não perdoe, nem dor que não calme, lembre-se disso... O que não deve é guardar em si o seu desgosto... É isso que sufoca, que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, sossegá-la, é procurar-me...

- Quando? disse ela toda desejosa já de se refugiar na proteção daquele santo homem.

- Quando quiser, disse ele rindo. Eu não tenho horas para consolar... A igreja está sempre aberta, Deus está sempre presente...

Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amélia foi à residência; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionário de pinho - que o bom abade por suas mãos pintara de azul-escuro, com extraordinárias cabecinhas de anjos que em lugar de orelhas tinham asas, uma obra de alta arte de que ele falava com uma secreta vaidade.

XXII

O padre Amaro acabara de jantar, e fumava, com os olhos no teto, para não ver o carão chupado do coadjutor que havia meia hora ali estava, imóvel e espectral, fazendo cada dez minutos uma pergunta que caía no silêncio da sala como os quartos melancólicos que dá de noite um relógio de catedral.

- O senhor pároco já não é assinante da Nação?

- Não. senhor, leio o Popular.

O coadjutor recaiu num silêncio, começando logo a coligir laboriosamente as palavras para uma nova pergunta. Soltou-a enfim, com lentidão:

- Não se tornou a saber daquele infame que escreveu o Comunicado?

- Não senhor, foi para o Brasil.

A criada entrou, neste momento, dizendo que "estava ali uma pessoa que queria falar ao senhor pároco". Era a sua maneira de anunciar a presença de Dionísia na cozinha.

Havia semanas que ela não aparecia - e Amaro, curioso, saiu logo da sala fechando a porta sobre si, e chamou a matrona ao patamar.

- Grande novidade, senhor pároco! E vim a correr, que é sério. Está cá o João Eduardo!

- Ora essa! exclamou o pároco. E eu justamente a falar dele! É extraordinário. Olha que coincidência...

- É verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E já estou informada de tudo. O homem está mestre dos filhos do Morgadinho.

- Que Morgadinho?

- O Morgadinho dos Poiais... Se vive lá, ou se vai pela manhã e vem à noite, isso não sei. O que sei é que voltou... E janota, fato novo...

Eu entendi que devia avisar, porque pode estar certo que ele, mais dia menos dia, dá pela Ameliazinha lá na Ricoça... É no caminho para casa do Morgado... Que lhe parece?...

- Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando não serve é que aparece. Então por fim não foi para o Brasil?

- Pelos modos, não... Que a sombra dele não era, era ele mesmo em carne e osso... A sair da loja do Fernandes por sinal, e todo peralta... Sempre é bom avisar a rapariga, senhor pároco, que se não vá ela plantar de janela...

Amaro deu-lhe as duas placas que ela esperava - e daí a um quarto de hora, desembaraçado do coadjutor, ia no caminho da Ricoça.

•••

Batia-lhe forte o coração quando avistou o casarão amarelo, pintado de novo, o largo terraço lateral em linha com o muro do pomar, ornado de espaço a espaço no parapeito de vasos nobres de pedra. Ia enfim, depois de tão longas semanas, ver a sua Ameliazinha! E já se alvoroçava à idéia das exclamações apaixonadas com que ela lhe cairia nos braços.

(continua...)

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