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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Tinha só um defeito o abade Ferrão: gostava de caçar! Coibia-se, porque a caça tira muito tempo, e é sangüinário matar uma pobre ave que anda azafamada pelos campos nos seus negócios domésticos. Mas nas claras manhãs de Inverno, quando ainda há orvalho nas giestas, se via passar um homem de espingarda ao ombro, o passo vivo, seguido do seu perdigueiro - iam-se-lhe os olhos nele... Às vezes, porém, a tentação vencia; agarrava furtivamente a espingarda, assobiava à Janota, e com as abas do casacão ao vento, lá ia o teólogo ilustre, o espelho da piedade, através de campos e vales... E daí a pouco - pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz em terra! E lá voltava o santo homem com a espingarda debaixo do braço, os dois pássaros na algibeira, cosendo-se com os muros, rezando o seu rosário à Virgem, e respondendo aos bons-dias da gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso. O abade Ferrão, apesar do seu aspecto "gebo" e do seu grande nariz, agradou a Amélia, logo desde a primeira visita à Ricoça; e a sua simpatia cresceu, quando viu que D. Josefa o recebia com pouco alvoroço, apesar do respeito que o mano cônego tinha pela ciência do abade.

A velha, com efeito, depois de ter estado só com ele numa prática de horas, condenara-o com uma única palavra, na sua autoridade de velha devota experiente:

- É relaxado!

Não se tinham realmente compreendido. O bom Ferrão, tendo vivido tantos anos naquela paróquia de quinhentas almas, as quais caíam todas, de mães e filhas, no mesmo molde de devoção simples a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono da freguesia, tendo pouca experiência de confissão, encontrava-se, subitamente, diante duma alma complicada de devota da cidade, dum beatério caturra e atormentado; e ao ouvir aquela extraordinária lista de pecados mortais, murmurava espantado:

- É estranho, é estranho...

Percebera bem ao princípio que tinha diante de si uma dessas degenerações mórbidas do sentimento religioso, que a teologia chama Doença dos escrúpulos - e de que na sua generalidade estão afetadas hoje todas as almas católicas; mas depois, a certas revelações da velha, receou estar realmente em presença duma maníaca perigosa; e instintivamente, com o singular horror que os sacerdotes têm pelos doidos, recuou a cadeira.

Pobre D. Josefa! Logo na primeira noite em que chegara è Ricoça (contava ela), ao começar o rosário a Nossa Senhora, lembra-lhe de repente que lhe esquecera o saiote de flanela escarlate, que era tão eficaz nas dores das pemas... Trinta e oito vezes de seguida recomeçara o rosário, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre ela e Nossa Senhora!... Então desistira, de exausta, de esfalfada. E imediatamente sentira dores vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes nas pemas...

O abade pulou:

- Oh minha senhora!...

- Ai, não é tudo, senhor abade!

Havia outro pecado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; ultimamente engolia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estômago e se ia misturar com. as fezes! Que havia de fazer?

O abade, de olhar esgazeado, limpava o suor da testa.

Mas isto não era o pior: o grave era, que na noite antecedente, estava toda sossegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier - e de repente, nem ela soube como, pôs-se a pensar como seria S. Francisco Xavier nu em pêlo!

O bom Ferrão não se moveu, atordoado. Enfim, vendo-a olhar ansiosa para ele à espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:

- E há muito que sente esses terrores, essas dúvidas...?

- Sempre, senhor abade, sempre!

- E tem convivido com pessoas que, como a senhora, são sujeitas a essas inquietações?

- Todas as pessoas que conheço, dúzias de amigas, todo o mundo... O inimigo não me escolheu só a mim... A todos se atira...

- E que remédio dava a essas ansiedades de alma...?

- Ai, senhor abade, aqueles santos da cidade, o senhor pároco, o Sr. Silvério, o Sr. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre de embaraços... E com uma habilidade, com uma virtude...

O abade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente o rebanho naquelas trevas de alma, mantendo o mundo dos fiéis num terror abjeto do Céu, representando Deus e os seus santos como uma corte que não é menos corrompida, nem melhor, que a de Calígula e dos seus libertos.

(continua...)

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