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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amélia não duvidou ao princípio que a velha, que contava morrer no mesmo aparato de glória com que expirava o Justo da estampa, lhe quisera mostrar a ela, a pecadora, a cena pavorosa que a esperava. Odiou-a por aquela "picardia". Mas a sua imaginação aterrada não tardou a dar à compra da estampa outra explicação: era Nossa Senhora que ali mandara o vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na litografia da Morte do Pecador o espetáculo da sua agonia: e estava então certa que tudo seria assim, traço por traço - o seu anjo da guarda fugindo aos soluços; Deus Padre desviando o rosto dela com repugnância; o esqueleto da morte rindo ás gargalhadas; e demônios de cores rutilantes, com todo um arsenal de torturas, apoderando-se dela, uns pelas pernas, outros pelos cabelos, arrastando-a com uivos de júbilo para a caverna chamejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna Dor... E ela podia ver ainda, no fundo dos Céus, a grande balança - com um dos pratos muito alto onde as suas orações não pesavam mais que uma pena de canário, e o outro prato caído, de cordas retesadas, sustentando a enxerga da cama do sineiro e as suas toneladas de pecado.

Caiu então numa melancolia histérica que a envelhecia; passava os dias suja e desarranjada, não querendo dar cuidados ao seu corpo pecador; todo o movimento, todo o esforço lhe repugnava; as mesmas orações lhe custavam, como se as julgasse inúteis; e tinha atirado para o fundo duma arca o enxoval que andava a costurar para o filho - porque o odiava, aquele ser que ela sentia mexer-se-lhe já nas entranhas e que era a causa da sua perdição. Odiava-o - mas menos que o outro, o pároco que lho fizera, o padre malvado que a tentara, a estragara, a atirara às chamas do Inferno! Que desespero quando pensava nele! Estava em Leiria sossegado, comendo bem, confessando outras, namorando-as talvez - e ela ali sozinha, com o ventre condenado e enfartado do pecado que ele lá depusera, ia-se afundindo na perdição sempiterna!

Decerto esta excitação a teria matado - se não fosse o abade Ferrão que começara então a vir ver muito regularmente a irmã do amigo cônego.

Amélia ouvira falar muitas vezes nele na Rua da Misericórdia; dizia- se lá que o Ferrão tinha "idéias esquisitas"; mas não era possível recusar-lhe nem a virtude da vida nem a ciência de sacerdote. Havia muitos anos que era ali abade; os bispos tinham-se sucedido na diocese, e ele ali ficara esquecido naquela freguesia pobre, de côngrua atrasada, numa residência onde chovia pelos telhados. O último vigário-geral, que nunca dera um passo para o favorecer, dizia-lhe todavia, liberal de palavreado:

- Você é um dos bons teólogos do reino. Você está predestinado por Deus para um bispado. Você ainda apanha a mitra. Você há-de ficar na história da Igreja portuguesa como um grande bispo, Ferrão!

- Bispo, senhor vigário-geral! Isso era bom! Mas era necessário que eu tivesse o arrojo dum Afonso de Albuquerque ou dum D. João de Castro, para aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade!

E ali ficara, entre gente pobre, numa aldeia de terra escassa, vivendo de dois pedaços de pão e uma chávena de leite, com uma batina limpa onde os remendos faziam um mapa, precipitando-se a uma meia légua por um temporal desfeito se um paroquiano tinha uma dor de dentes, passando uma hora a consolar uma velha z quem tinha morrido uma cabra... E sempre de bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos calções para uma necessidade do seu vizinho, grande amigo de todos os rapazitos a quem fazia botes de cortiça, e não duvidando parar, se encontrava uma rapariga bonita, o que era raro na freguesia, e exclamar: "Linda moça, Deus a abençoe! "

E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era tão célebre, que lhe chamavam "a donzela".

De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas de estação aos pés do Santíssimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as menores práticas da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia com uma profunda oração mental, uma meditação de fé, de onde a sua alma saía ágil, como dum banho fortificante; preparando-se para o sono com um destes longos e piedosos exames de consciência, tão úteis, que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarco e Sêneca, e que são a correção laboriosa e sutil dos pequenos defeitos, o aperfeiçoamento meticuloso da virtude ativa, empreendido com um fervor de poeta que revê um poema querido... E todo o tempo que tinha vago abismava-se num caos de livros.

(continua...)

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