Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza - emquanto o Damaso, sentado à beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava para elle desconfiado.

- E como soube ella onde tu moravas?

- Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se aprendem nas aulas de instrucção primaria...

O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos bolsos.

- Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu lhe digo...

- Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado mas maneiras...

Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se explicava... Mas primeiro parecera-lhe que anadava alli tramoia... Só com ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse delicado; e além d'isso ella estava de mau humor...

E acrescentou logo, accendendo o charuto:

- Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito... Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?

- Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se atreveria a dizer-me mal de ti. Damaso olhou-o, esgazeado:

- Ora essa!... Mas podia ter dito bem!

- Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem.

E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta, acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões...

Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o de revez.

- Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!

- Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!

Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o oulra vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...

- Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no sabbado.

Foi um espanto para o Damaso.

- Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha dois dias de Southampton... Jógo eu ?

Jogou, falhou a carambola.

- Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma toilette ingleza com coisas brancas, coisas côr de rosa... Chic a valer, parecia um moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos escandalo!

II

No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.

- Não faças espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa incognito!

E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a Lisboa, só por alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete...

- Ha cá um quarto para mim? Eu por ora estou no Hotel Hespanhol, mas ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime.

Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascença, e uma cópia dos Borrachos de Velasquez.

- Optimo covil para a arte! Velasquez é um dos Santos Padres do naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O pai Tompson esteve á morte, arribou, depois o conde foi buscal-a. Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti.

- Ah! murmurou Carlos.

Ega, de monoculo no olho e mãos nos bolsos, contemplava Carlos.

- É verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente, immoderadamente! Não me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, não é verdade? E que tal, no acto d'amor?

Carlos córou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a Gouvarinho senão relações superficiaes. Ia lá ás vezes tomar uma chavena de chá; e à hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar com o conde sobre as miserias publicas, á esquina do Loreto. Nada mais.

- Tu estás-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas não importa. Eu hei de descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira... Porque nós vamos lá jantar na segunda-feira.

- Nós... Nós, quem?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...138139140141142...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →