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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Ao outro dia desceu à quinta a ver os caseiros. Era talvez boa gente com quem podia distrair-se. Encontrou uma mulher, alta e lúgubre como um cipreste, carregada de luto: um grande lenço negro tingido, muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda pior, semelhante a um orangotango, com duas orelhas enormes muito despegadas do crânio, uma saliência bestial do queixo, as gengivas deslavadas, um corpo desengonçado de tísico, de peito metido para dentro. Abalou bem depressa, foi ver o pomar: andava maltratado; as ruazitas estavam invadidas por um ervaçal úmido; e a sombra das árvores muito juntas, num terreno baixo, cercado de altos muros, dava uma sensação doentia.

Era ainda preferível passar os seus dias metida no casarão; dias infindáveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso dum desfilar funerário.

O seu quarto era na frente; e pelas duas janelas recebia a impressão triste da paisagem que se estendia defronte; uma ondulação monótona de terras estéreis com alguma magra árvore aqui e além, um ar abafado em que parecia errar constantemente a exalação de pauis próximos e de baixas úmidas, e a que nem o sol de Setembro dissipava o tom sezonático.

Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josefa, acomodá-la no canapé; depois vinha costurar para ao pé dela - como outrora na Rua da Misericórdia para ao pé da mãe; mas agora em lugar das boas "cavaqueiras" tinha só o silêncio intratável da velha e a sua ronqueira incessante. Pensara em fazer vir o seu piano da cidade; mas, apenas em tal falou, a velha exclamou com azedume:

- A menina está doida... Não tenho saúde para tocatas! Ora o despropósito!

A Gertrudes também não lhe fazia companhia; nas horas em que não estava ao pé da velha, ou na cozinha, desaparecia; era justamente daquela freguesia, e passava o seu tempo pelos casais, palrando com as antigas vizinhas. .

A pior hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rosário, ficava junto à janela olhando estupidamente as gradações da luz poente; todos os campos pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silêncio parecia descer, pousar sobre a Terra; depois uma primeira estrelinha treme. luzia e brilhava: e diante dela era então só uma massa inerte de sombra muda até ao horizonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada tira cor de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum tom de luz ou contorno de objeto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para longe, para a Vieira; àquela hora a mãe e as amigas recolhiam do passeio na praia; já todas as redes estavam apanhadas; já pelos palheiros começam a aparecer as luzes; é a hora do chá, dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vão em rancho pelas casas amigas, com uma viola e uma flauta, improvisando soirées. E ela ali, só!...

Era então necessário deitar a velha, rezar com ela e com a Gertrudes o terço. Acendiam depois o candeeiro de latão, pondo-lhe diante uma velha chapeleira para dar sombra ao rosto da doente; e todo o serão, no silêncio lúgubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto.

Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, num medo constante de ladrões; e então começava para Amélia a hora dos terrores supersticiosos. Não podia adormecer, sentindo ao pé a negrura daquelas antigas salas desabitadas e em redor o tenebroso silêncio dos campos. Ouvia ruídos inexplicáveis: era o soalho do corredor que estalava, sob passadas multiplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como sob um hálito invisível: ou a distância, para os lados da cozinha, o baque surdo dum corpo. Acumulava então as orações, encolhida debaixo da roupa; mas, se adormecia, as visões do pesadelo continuavam-lhe os terrores da vigília. Uma vez acordara de repente, a uma voz que dizia, gemendo, por trás da alta barra da cama: - Amélia, prepara-te, o teu fim chegou! Espavorida, em camisa, atravessou correndo a casa, foi refugiar-se na cama da Gertrudes.

Mas na noite seguinte a voz sepulcral voltou quando ela ia adormecer: Amélia, lembra-te dos teus pecados! Prepara-te, Amélia! Deu um grito, desmaiou. Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitara, correu àquele ai agudo que cortara o silêncio do casarão. Achou-a estirada ao través do leito, com os cabelos soltos da rede rojando no chão, as mãos geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e até de madrugada foi uma azáfama para a chamar à vida. Desde esse dia a Gertrudes dormia ao pé dela - e a voz não tornou a ameaçá-la por trás da barra.

Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéia da morte e o pavor do Inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante de estampas passou pela Ricoça; e a Sra. D. Josefa comprou-lhe duas litografias - a Morte do Justo e a Morte do Pecador.

- Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse ela.

(continua...)

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