Por Eça de Queirós (1925)
Ás vezes, quando o pequeno Arthur rabujava muito, o pobre pae, alta noite, de chinelas e paletot, embalava-o nos braços pelo quarto, cantaroIa,ndo-lhe n'uma voz roufenha o Gentil Pugem d'ElRei até o adormentar ; e ficava então enlevado a olhar para aquelle rostozinho amarello de lombrigas, ainda com uma lagrimazinha nas pestanas, imaginando-o já na sua beca de desembargador, celebre como Lobão e auctor d'um livro querido como Amor e Melancolial Elle, por esse tempo, coitado, estaria velho: não poderia trabalhar, mas aquelle serzinho que agora a sonhar lhe mamava no dedo, seria então um filho illustre e bom, que pela posição na Magistratura lhe faria a velhice farta e pela gloria nas Letras lhe tornaria o nome classico.
Foi grande a sua alegria quando notou que nada calmava as raras perrices do Arthurzinho, como folhear algum veneravel in-folio d'antiga legislação ; e sobretudo, mais tarde, quando viu que o divertimento querido do pequeno, não era rufar em tambores ou cavalgar vassouras, mas, aninhado nas saias da mãe, coser caderninhos de papel, que cobria de capas côr de rosa e de que accumulava collecções com a devoção d'um velho bibliophilo.
— Signaes d'intelligencia — dizia muito serio o bom homem.
Por isso, bem cedo, Arthur começou a trabalhar o seu Tito-Livio e o seu Telemaco. Mas a mãe, que depois do parto ficara sempre adoentada, affligiase do tamanho das lições, e se o rapaz, com somno, não fazia o thema, mandava ao outro dia secretamente um arratel de chá ou d'assucar ao mestre João Grainha para lhe acalmar a severidade. De verio e d'inverno cobria-o de flanellas, e se o ouvia espirrar, fazia-o beber ao jantar copinhos d'agua quente ; nunca o deixava adormecer sem verificar se elle tinha aos pés a sua botija, á cabeceira, a imagem de Nossa Senhora, e ao lado, a campainha, a lamparina, a chásada, o assucareiro e um ladrilhozinho de marmelada. E o proprio pae o ia buscar á escola, para impedir que os outros pequenos o fizessem correr ou lhe dirigissem chufas.
O rapaz, sob este regímen, não se desenvolveu. Tinha a pallidez, a graça nervosa d'uma menina : uma porta que batia de repente fazia-o despedir um grito. A sua sensibilidade era como a corda muito afinada d'uma rabeca : uma historia triste, um não de recusa, punham-lhe logo nas palpebras duas grossas lagrimas. A sua memoria, que retinha longas poesias, fazia o espanto dos amigos da casa, e já quando elle tinha oito ennos era para o pae um grande orgulho ouvil-o, nas noites de partida, entre o semi-circulo enternecido das vizinhas, começar n'uma melopea :
noite, o astro saudoso
Rompe a custo o plumbeo céu
— Deve ir longe — dizia n'um tom profundo o escrivão, acariciando compenetradamente os tres pellos da calva. Mas o verdadeiro espectaculo era ouvil-o recitar ternamente a fabula dos Dois Pom-Deux pigeons s'aimaient d'amour tendre i
Já então passava os seus fins de tarde, depois da aula, encostado á janella do quintal, trazendo sempre algum volume da pequena livraria do papá, um tomo de Filinto Elysio ou os Martyres de Chateaubriand, ou, sobretudo, alguma novella da Bibliotheca das Damas.
Era de resto, como dizia o advogado Silveira uma gentilissima creança Tinha naturalmente as maneiras d'um homemzinho, e a mãe babava-se toda quando o via, na sala, precipitar-se a recolher das mãos d'uma senhora a chicara vazia, ou quando elle dava um shake-hand8 ao delegado Pimenta, com os pés muito juntos, todo curvado, como na Oôrte.
Ernfim, um dia, o pae, comrnovido, surprehendeu os seus primeiros versos, copiados a limpo, n'uma bonita letra cursiva :
Junto a um ribeirinho serpeante Um chorão se debruça, E eu, terno amante .
Foi ao outro dia, no tribunal, com os olhos humid0B, mostr•al-os ao advogado Silveira, a maior auctoridade litteraria d'Ovar. Silveira elogiou-os largamente — sobretudo o final, d'uma cadencia lyriea tão rica que o surprehendeu :
Celebrarei na minha frauta amena
Teus olhos, morena
— Os versos estão todos certos— disse Silveira — e ha duas imagons opulentas ! Gentilissimo rapaz !
.E tomou mesmo tanta affeição a Arthur, que o presenteou com um Durico, e propoz ao pac quo nos dias feriados o deixasse ir para o seu escriptorio, onde lhe franquearia a sua livraria, «um verdadeiro banquete d'intelligencia. » E assim, aos domingos, emquanto o Silveira á banca, de charuto nos dentes, ia entulhando d'imagens floridas o seu folhetim semanal, Arthur, a um canto, encolhido n'uma velha poltrona, devorava novellas e versos de Delille, de Garrett, de Volney e de Lamartine . . . Voltava sempre para casa exaltado. Fechava-se no quarto a trabalhar no seu Poema, de que já tinha quinze oitavas, e que se passava todo n'um jardim, entre elle, anjos e cavalleiros. Andava perdidamente namorado pela Joanninha das Viagens na Minha Terra, mas d'um amor vasto, complexo, que a abrangia a ella, á cazinha branca, ao rouxinol e a todo o valle de Santarem !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.