Por Eça de Queirós (1888)
- Não, não estou amuado...
- Olha então para mim!...
Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mãos corriam-lhe os braços n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois, com um lindo olhar, estendia-lbe os labios. Pedro colhia n'elles um longo beijo, e ficava consolado de tudo.
Durante esse tempo Affonso da Maia não sahia das sombras de Sta. Olavia, tão esquecido para lá como se estivesse no seu jazigo. Já se não fallava d'élle em Arroios, D. Fuas estava roendo a teima. Só Pedro ás vezes perguntava a Villaça «como ia o papá.» E as
noticias do administrador enfureciam sempre Maria: o papá estava optimo; tinha agora um cosinheiro francez explendido; Sta. Olavia enchera-se de hospedes, o Sequeira, André da Ega, D. Diogo Coutinho...
- O Barbatanas trata-se! ia ella dizer ao pae com rancor.
E o velho negreiro esfregava as mãos, satisfeito de o saber assim feliz em Sta. Olavia; porque nunca cessara de tremer á idéa de ver em Arroios, deante de si, aquelle fidalgo tão severo e de vida tão pura.
Quando porém Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que então se fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coração de Pedro a imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de reconciliação, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescença. E a sua alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa, respondeu:
- Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui...
Pedro, enthusiasmado com um assentimento tão inesperado, pensou em abalar para Sta. Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso, segundo dizia o Villaça, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem, ella iria lá com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente, atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-hia a benção para seu neto! Não podia falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiração de maternidade...
Para abrandar desde já o papá, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de Affonso. Mas n'isso Maria não consentiu. Andava lendo uma novella de que era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e, namorada d'elle, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo um destino de amores e façanhas.
O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi muito benigna porém; e d'ahi a duas semanas Pedro podia já sahir para uma caçada na sua quinta da Tojeira, adiante d'Almada. Devia demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar um italiano, chegado por então a Lisboa, distincto rapaz que lhe fôra apresentado pelo secretario da Legação Ingleza, e com quem Pedro sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e vinha fugido de Napoles, onde conspirára contra os Bourbons, e fôra condemnado á morte. O Alencar e D. João Coutinho iam tambem á caçada - e a partida foi de madrugada.
N'essa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiu carruagens parando á porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:
- Uma grande desgraça, Maria!
- Jesus!
- Feri o rapaz, feri o napolitano!...
- Como?
Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda dispara-se-lhe, e a carga, zás, vae cravar-se no napolitano! Não era possivel fazer curativos na Tojeira, e voltaram logo a Lisboa. Elle naturalmente não consentira que o homem que tinha ferido recolhesse
ao hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo lá ia passar a noite... - E elle?
- Um heroe!... Sorri, diz que não é nada, mas eu vejo-o pallido como um morto. Um rapaz adoravel! Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar que ia mesmo ao pé d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz intimo, de confiança! até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o de cerimonia ...
Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo.
- É o medico!
E Pedro abalou.
Voltou d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella bagatella, uma chumbada no braço, e alguns grãos perdidos nas costas. Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caçar outra vez na Tojeira; e o principe estava já fumando o seu charuto.
Bello rapaz! Parecia sympathisar com o papá Monforte...
Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhe dava aquella idéa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado á morte, ferido agora por cima do seu quarto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.