Por Eça de Queirós (1870)
Contei-lhe ontem como inesperadamente havia encontrado à cabeceira da cama umcabelo louro. Prolongou-se a minha dolorosa surpresa. Aquele cabelo lu minoso, languidamenteenrolado, quase casto, era o indício de um assassinato, de uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, imóvel, aquele cabelo perdido. A pessoa a quem ele pertencia era loura, clara, decerto, pequena, mignonne, porque ofio de cabelo era delgadíssimo, extraordinariamente puro, e a raiz branca parecia prender-se aos tegumentos cranianos por uma ligação ténue, delicadamente or ganizada.O carácter dessa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabelo não tinha ao contacto aquela aspereza cortante que oferecem os cabelos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoísta.Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabelo, já pelo imperceptível perfume dele, já porque não tinha vestígios de ter sido frisado, oucaprichosamente enrolado, domado em penteados fantasiosos.
Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Alemanha, por que o cabelo denotava na sua extremidade ter sido espontado, há bito das mulheres do Norte, completamente estranhoàs meridio nais, que abandonam os seus cabelos à abundante espessura na tural.
Isto eram apenas conjecturas, deduções da fantasia, que nem constituem uma verdadecientífica, nem uma prova judicial. Esta mulher, que eu reconstruía assim pelo exame de um ca belo, e que me aparecia doce, simples, distinta, finamente educa da, como poderia ter sido o protagonista cheio deastúcia daquela oculta tragédia? Mas conhecemos nós, porventura, a secreta lógica das paixões?Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cúmplice. Aquele homem não se tinha suicidado. Não estava decerto sé, no momento em que bebera o ópio. O narcótico tinha-lhe sido dado, sem violência evidentemente, por ardil ou en gano,num copo de água. A ausência do lenço, o desaparecimento da gravata, a colocação do fato, aquele cabelo louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça,tudo indicava a presença de alguém naquela casa durante a noite da ca tástrofe. Por consequência: impossibilidade de suicídio, verosimilhança de crime.
O lenço achado, o cabelo, a disposição da casa (evidentemente destinada a entrevistas íntimas), aquele luxo da sala, aquela esca da velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte dela naquela aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era oassassino, o cúmplice, o ocultador do cadáver? Não sei. M. C. não podia ser estranho a essa mulher. Não era decerto um cúmplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar ópio num copo de água não é necessário chamar um assassino assalariado. Tinham porconsequência um interesse comum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E acudiame à memória aquela inesperada referência a 2300 libras que de repente me tinha aparecidocomo um novo mistério. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei-de repetir eu todas as ideias que se formavam e que se desmanchavam no meu cérebro, como nuvens num véu varrido pelo vento?Há decerto na minha hipótese ambiguidades, contradições e fraquezas, há nos indícios que colhi lacunas e incoerências: muitas coisas significativas me escaparam por certo, aopasso que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memória, mas eu estava num estado mórbido de perturbação, inteiramente desor ganizado por aquela aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mistérios, se instalara na minha vida.O senhor redactor, que julga de ânimo frio, os leitores, que sos segadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor com binar, estabelecer deduções mais certas, e melhoraproximarse pela indução e pela lógica da verdade oculta.
Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapéu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.- Vamos — disse ele.
Tomei calado o meu chapéu. — Uma palavra antes — disse ele. -Em primeiro lugar dê-me a sua palavra de honra queao subir agora à carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.