Por Eça de Queirós (1900)
Mas o Sr. Administrador do Concelho afirmou que as consentia, e rasgadamente... Porque também ele, como Governo, venderia Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa oriental! E às talhadas! Em leilão! Ali, toda a África, posta em praça, apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos por quê? Pelo são princípio de forte administração (estendia o braço, meio alçado do banco, como num Parlamento)... Pelo são princípio de que todo o proprietário de terras distantes, que não pode valorizar por falta de dinheiro ou gente, as deve vender para consertar o seu telhado, estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom torrão que pisa com os pés... Ora a Portugal restava toda uma riquíssima província a amanhar, a regar, a lavrar, a semear - o Alentejo!
O Titó lançou o vozeirão, desdenhando o Alentejo como uma película de terra de má qualidade, que, fora umas léguas de campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão só dava dois, e, apenas esgaravatada, logo mostrava o granito...
- O mano João tem lá uma herdade imensa, imensíssima, que rende trezentos mil réis!
O Administrador, que advogara em Mértola, protestou, encristado. O Alentejo! Província abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde séculos, pela imbecilidade dos governos... Mas riquíssima, fertilíssima!
- Pois então os Árabes... E qual Árabes! Ainda há dias o Freitas Galvão me contava...
Mas Gonçalo Mendes, que cuspira também a genebra com uma carantonha, acudiu. num resumo varredor, condenando todo o Alentejo como uma desgraçada ilusão!
Estirado por sobre a mesa. o Administrador gritava:
- Você já esteve no Alentejo?
- Também nunca estive na China, e...
- Então não fale! Só a vinha espantosa que plantou o João Maria...
- Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, noutros sítios, léguas e léguas sem...
- Um celeiro!
- Uma charneca!
E através do tumulto o Videirinha, repenicando com solitário ardor, levado na torrente de ais do "fado" da Anosa, soluçava contra uns olhos negros, donos do seu coração:
Ai! que dos teus negros olhos Me vem hoje a perdição...
O petróleo dos candeeiros findava: e o Gago, reclamado para trazer castiçais, surdiu em mangas de camisa, detrás duma cortina de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a Suas Excelências que passava da uma horazinha da noite... O Administrador, que detestava noitadas, nocivas à sua garganta (de amígdalas loucamente inflamáveis), puxou o relógio com terror. E rapidamente reabotoado na sobrecasaca, de chapéu-coco mais tombado à banda, apressou o lento Titó, porque ambos moravam no alto da Vila-ele defronte do Correio, o outro na viela das Teresas, numa casa onde outrora habitara e aparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.
O Titó porém não se aviava. Com o bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado negócio de urna compra de espingarda, soberba espingarda Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do Tabelião Guedes de Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou à porta da taberna, no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre o Governador Civil de Oliveira - o André Cavaleiro!
Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo clamando que não aludissem diante dele, pelas cinco chagas de Cristo, a esse bandido, esse Sr. Cavaleiro e sobretudo Cavalo, mandão burlesco que desorganizava o Distrito! E João Gouveia muito teso, muito seco, com o coco mais caído na orelha, assegurando a inteligência superior do amigo Cavaleiro, que estabelecera limpeza e ordem, corno Hércules, nas cavalariças de Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violão resguardado atrás das costas, suplicava aos amigos que recolhessem à taberna, para não alvorotar a rua...
- Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venâncio está desde ontem com a pontada!
- Pois então - berrou Gonçalo - não venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia,que Oliveira nunca teve Governador Civil como o Cavaleiro!... Não é por meu pai! O papá já lá vai há três anos, infelizmente. Concordo que não fosse boa autoridade. Era frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o Bernardino. Você serviu com eles. Eram dois homens!... Mas este cavalo deste Cavaleiro! A primeira condição para a autoridade superior dum Distrito é não ser burlesca. E o Cavaleiro é de entremez! Aquela guedelha de trovador, e a horrenda bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo empinado, e o pó-pó-poh! E de entremez! E estúpido, duma estupidez fundamental, que lhe começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores, que animal!... Sem contar que é malandro.
Teso na sombra do imenso Titó, como uma estaca junto duma torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma serenidade cortante:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.