Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocatéis Luís XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu príncipe, enfiado, enxugava uma fotografia de Madame de Oriol, de ombros decotados, que o jorro bruto maculara de empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a água aquecia em seguras panelas – e subia ao meu lavatório, pela mão forte da Catarina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no Clube. E, na Ópera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu branco cisne e as suas brancas armas – entalado, aperreado, cortado nos sovacos pela casaca que Jacinto me emprestara e que rescendia estonteadoramente a flores de Nessari.

No Domingo, muito cedo, o Grilo, que na véspera escaldara as mãos e as trazia embrulhadas em seda,

penetrou no meu quarto, descerrou as cortinas, e à beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto: -Vem no Fígaro!

Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos Ecos, doze linhas, onde as nossas águas rugiam e

espadanavam, com tanta magnificência e tanta publicidade, que também sorri, deleitado.

E toda a manhã, o telefone, siô Fernandes! Exclamava o Grilo, rebrilhando em ébano. A quererem saber, a quererem saber... “Está lá? Está escaldado?” Paris aflito, siô Fernandes!

O telefone, com efeito, repicava, insaciável. E quando desci para o almoço, a toalha desaparecia sob uma camada de telegramas, que o meu Príncipe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a “maçada”. Só desanuviou, ao ler um desses papéis azuis, que atirou para cima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorríamos, o Grilo e eu:

-É do Grão-Duque Casimiro... Ratão amável! Coitado!

Saboreei, através dos ovos, o telegrama de S. Alteza. “O quê! o meu Jacinto inundado! Muito chique, nos Campos Elísios! Não volto ao 202 sem bóia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...” Murmurei também com deferência: - “Amável! Coitado!” Depois, revolvendo lentamente o montão de telegramas que se alastrava até ao meu copo::

-Ó Jacinto! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te telefona, te telegrafa, te...? -Diana... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!

-Tua?

-Minha, minha... Não! tenho um bocado.

E como eu lamentava que o meu Príncipe, senhor tão rico e de tão fino orgulho, pôr economia duma gamela própria chafurdasse com outros numa gamela pública – Jacinto levantou os ombros, com um camarão espetado no garfo:

-Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolência, é necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente pôr Civismo, para dotar a Cidade com uma cocotte monumental. De resto não chafurdo. Pobre Diana!... dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de limão.

Arregalei um olho divertido:

-Dos ombros para baixo?... E para cima?

-Ó! para cima tem pó de arroz!... Mas é uma seca! Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E três mil francos pôr mês, além das flores... Uma maçada!

E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado sobre a salada, eram como dois

vales muito tristes, ao entardecer.

Acabamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, num murmúrio, anunciou Madame de Oriol, Jacinto pousou com tranqüilidade o charuto; eu quase me engasguei, num sorvo alvoroçado de café. Entre os reposteiros de damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, dum negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade docemente chalrada:

-É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, não me contive, quis ver os estragos... Uma inundação em Paris, nos Campos Elísios! Não há senão este Jacinto. E vem no Fígaro! O que eu estava assustada, quando telefonei! Imaginem! Água a ferver como no Vesúvio... Mas é duma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo pôr admirar as ruínas!

Jacinto, que não me pareceu comovido, nem agradecido com aquele interesse, retomara risonhamente o charuto:

-Está tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi ontem, quando a água fumegava e rugia! Ora que pena não Ter ao menos caído uma parede!

Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços duma inundação. O Fígaro contara... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos Campos Elísios!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1213141516...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →