Por Camilo Castelo Branco (1869)
Era um estudante que se habilitava para cursar a escola médico-cirúrgica do Porto. Era cunhado do merceeiro que provia a casa de D. Beatriz. Era irmão da mulher que costurava os vestidos das fidalgas, e ensinara a bordar D. Ângela. Chamava-se, curta e plebeiamente, Francisco José da Costa, e sabia que seu avô paterno tinha sido carpinteiro, e seu avô materno cozinheiro de um iate.
Ora um homem assim “mal-nascido” alguma jóia devia trazer preciosa dos inexauríveis tesouros de Deus.
Se nos ele sair bom e honrado coração, desculparemos a baixeza de instintos com que nos alvorece Ângela no seu primeiro amor.
A inocente não se escondia de D. Beatriz. Ensina a experiência que a candura e a indiscrição andam muito íntimas. A inocência ombreia com a inépcia. Não pode uma menina amar inocentemente senão as suas bonecas. Amores doutra espécie, desajudados de esperteza e finura, desfecham em escândalo ou sandice.
D. Beatriz, devotíssima de S. José, que carpintejava, e de S. Pedro, que pescava, e de S. Marcos, que mesinhava enfermos, e de S. Lucas, que pintava, e de S. Mateus, cobrador de impostos, e de S. Cassiano, mestre-escola, e de S. Teodoro, taverneiro – cristã a extremos de lavar os pés aos pobres em quinta-feira santa, - tranziu-se de horror frio quando teve a denúncia de que sua sobrinha amava o irmão de Joana Costa. A denúncia vinha justificada com uma carta dele, significativa de não ser a primeira, nem talvez a décima; porque o tratamento dado a uma filha de Simão de Noronha e de D. Maria d’Antas era... um tu!
D. Beatriz pôs as mãos convulsas nos olhos quando leu tu na primeira linha, tu a primeira sílaba da carta, uma entrada assim suja e escandalosa numa missiva de caderno numerado de uma a dez páginas! E não leu mais do que aquele tu, porque em seguida apanhou-lhe o flato as potências da alma, e ela ficou a escabujar tão-somente com a potência de braços e pernas.
Ângela acudiu; Vitorina, aquela criada que o leitor já conhece, lá estava, e, nas mãos desta, a carta.
― Veja isto, menina, veja isto! – murmurou Vitorina. – Tanto lhe pedi que não lhe escrevesse...
Ângela sumiu a carta no seio, e tomou nos braços a tia. Chamou-a, beijou-a, pediu-lhe perdão, desbulhou-se em lágrimas, e deu graças a Deus quando a velha mandou fazer uma infusão de erva cidreira para aplacar a tempestade dos nervos.
Depois do que D. Beatriz obrigou a sobrinha a contar-lhe pelo miúdo a origem da sua correspondência com o irmão da costureira. Via-se a menina enleada para referir o mais singelo da história, que era a origem; mas a velha insistia em perguntar:
― Como foi o princípio disso?
― O princípio... foi... foi... eu vê-lo... – respondeu Ângela muito apertada.
Este começar a história dum primeiro e talvez eterno amor tem a sublimidade simples da origem do Universo, referida por Moisés: “No princípio era o Verbo”; com a diferença que o principiar de Ângela entende-se melhor.
― Então tu... – objetou a tia entre irônica e severa – viste-o, olhaste para ele, e mais nada... ficaste apaixonada!... Com efeito!... Eu ainda não me infirmei bem na cara desse sarrafaçal; mas, pela idéia que tenho, ele tem uma figura muito reles! Tu não sabias – continuou D. Beatriz, espiritando-se com uma pitada de vinagrinho – não sabias que ele é irmão da Joana, e cunhado do Zé tendeiro? E que o pai dele era sacristão da Senhora da Agonia, e que a mãe trabalhava com os bilros? Sabias isto?
― Sabia...
― Sabias?! Quem to disse?
― Foi ele.
― Foi ele mesmo?! O tal Francisco?
― Sim, minha senhora.
― Então tu falavas-lhe?
― Não, minha senhora... Escrevia-me ele.
― E contou-te de quem era filho!... É extraordinária a sinceridade!... E para que fim te contava ele essas coisas que deviam fazer-te cair na razão da tua indigna escolha?
― Contava-me estas coisas para que ninguém mas contasse antes dele.
― Então o rapazola tinha orgulho em ser filho do sacristão?... Bem sei... são as idéias que cá trouxe a liberdade... Deus perdoe a teu pai, que também ajudou a fazer gente os netos dos carpinteiros e dos cozinheiros dos iates... Oxalá que ele não pague... Vamos ao caso... E tu, apesar do Francisco da Joana te dizer quem era, não mudaste de idéia?
― Não minha senhora...
― Continuavas a querer-lhe...
― Sim, minha tia.
― E com que fim? Querias casar com ele?
― Se me deixassem, casaria.
― Ora não sejas infame! – bradou a tia, cerrando os punhos, e resfolegando tão irada que o tabaco lhe espirrava em granizo das ventas arquejantes – não sejas infame, Ângela! – repetiu ela, resistindo ao flato que já lhe emperrava a língua. – Não és minha sobrinha, não és filha de Simão de Noronha... De Maria d'Antas creio eu bem que sejas filha...
A última espécie do insulto foi vociferada com rancoroso sarcasmo: Ângela não o percebeu.
― Com que então, se te deixassem, casarias com o cunhado do Zé tendeiro!... – repetiu a velha acentuando com crispações de riso aspérrimo aquele Zé, elidindo a primeira silaba para engrandecer a ignomínia do nome.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.