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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Este rapaz de corte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas damas da rainha, era aquele ébrio encanecido que, debruçado na janela do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada, revessava ao caminho público golfos aziumados de vinhaça, e dizia garotices de lacaio às raparigas que passavam medrosas e o saudavam: – Guarde Deus V. Sª senhor fidalgo! – Tenha V. Sª muito boas tardes, senhor morgado! – E ele, almofaçando as barbas conspurcadas de vómito: – Li brejeira, deixa lá ver o patriotismo; que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquela rebola os quadris, o grande coldre! – As cachopas não respondiam; safavamse com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas comentavam: – Que levasse o Diabo o piteireiro do fidalgo! – que a fidalga fizera bem em se pisgar com o doutor dos Pombais. – Quer não – contrariava uma lavradeira idosa – foi má mulher que deixou assim os filhos, cinco crianças! uma desgraça! Nem as cadelas faziam isso. Os mais velhos já se emborracham, e as meninas estão quase mulheres e ainda não foram ao confesso nem sabem a doutrina. Que uma delas, a Teresinha, já se enfeitava para o estudante das Quintãs que andava por lá feito caçador, e que o morgadinho, o Sr. Heitor, namorava a filha do José Alho, e até se dizia que lhe falara em casamento. Vede vós que desgraça, ó moças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui há tempos na taverna de Vilaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e mais à cróia da filha, e a comerem todos iscas de bacalhau com as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era rapariguita, aqueles senhores nunca saíam sem os seus mochilas fardados e tinham liteiras com as armas reais pintadas. Faziam mesmo um respeito! O Sr. Rodrigo, pai deste morgado velho, era disto dos governos lá de Lisboa, e quando vinha ver as suas quintas, ó senhores, caía ai o poder do mundo de Braga e Guimarães a visitá-lo! E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a beijar-lhes a mão, e elas no dia de Páscoa mandavam às cachopas lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquela casa estava sempre cheia de frades de ordens ricas...

– Isso, isso.., eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de frades de ordens ricas – dizia o José Dias de Vilalva. – Muito cheias de frades aquelas fidalgas, hem?

– Aí vens tu com as tuas alicantinas – retrucava, prognóstica e solene, a tia Rosa de Carude. – É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas de hoje em dia presentemente fogem com os doutores e deixam os filhos... Isto agora é que é bom às direitas, pois não é? No tempo antigo, valhame Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e criavam os seus filhos.

– Os filhos dos frades? – perguntava o Dias.

– Cala-te aí, boca danada! Olha que padre havia de sair de ti! Ainda bem que a Marta de Prazins te fez mudar de rumo.

A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombais não amotinara a opinião pública escandalizada. A excepção da austera Rosa de Carude. toda a gente deu razão à fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, que metia em casa – uma diversão à embriaguez, quando não exercia as duas distracções numa promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D. Andresa da Silveira, da casa dos Pombais, irmã de um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com ela e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andresa pediu ao irmão que viesse ouvir as tristes alegações da sua desgraçada amiga.

Estava Honorata nos trinta e três anos, quando Silveira a encontrou nos Pombais. O delegado era um romântico. Emigrara em 28, sendo estudante, quando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o suplício da forca pelo homicídio dos lentes. Completara a formatura em 38 e fora despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que havia abencerragens e infantas cristãs apaixonadas que tocavam arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castelos roqueiros. Também fazia prosa na Gazeta Literária do Porto – cenas dramáticas em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros, cravavam lâminas de Toledo às portas de D. Fuas, e, cruzando os braços, rugiam cavernosamente: E depois, os arrepios de uma casquinada seca, de um estridente grasnido de gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.

(continua...)

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