Por Eça de Queirós (1888)
Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da visinha: Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de grande dame». Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha vêr (como elle dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta». Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...
- E seu sogro?
O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
- Mal.
Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando Niniche que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um ar de cumplicidade, murmurou:
- É o snr. Damaso!...
Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi escandalisada.
- Pois bem, mande entrar!
E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito, gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos alli, intimamente, de cadellinha no collo,
estacou assombrado, com o olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio comprimentar Maria Eduarda quasi de leve, - e voltando-se logo para Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
- Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!... Eu estava mais longe... Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quis saber como elle tinha chegado.
- Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural... Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.ª vê – e mostrou o seu luto pesado - acabo de passar por um grande desgosto.
Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta.
- E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo?
Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez risonho:
- Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da Niniche. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao bigode, estendeu a mão para acariciar tambem Niniche
sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
- C'est moi Niniche! dizia Damaso, recuando a cadeira. C'est moi, ami... Alors, Niniche...
Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente Niniche. E, aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, rosnando, e com rancor.
- Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso...
- Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este escandalo.
Damaso balbuciava, escarlate:
- Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre caricias...
E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades novas de Mademoiselle Niniche. Alli estava nos braços d'outro, emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
Carlos ria.
- Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.ª D. Maria Eduarda esta a dizer que ella sempre te teve odio...
- Sempre! exclamou Maria.
Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, rirando um lenço de barra negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a tarde á espera...
- Eram vesperas de partida, disse ella.
- Sim, bem sei, o marido de v. exc.ª... E como vai o snr. Castro Gomes? V. excª já recebeu noticias?
- Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...
- Pois v. excª - continuou elle, cheio subitamente de loquacidade - perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois não é verdade que estiveram muito chics? Olhe, minha senhora, d'uma coisa póde v. excª estar certa, é que hippodromo mais bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.