Por Eça de Queirós (1888)
erguer os olhos do seu bordado, cahiam no coração de Carlos e ficavam lá muito tempo, palpitando e brilhando...
Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confissões; - e ainda não sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer a rua que habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jamais o nome do marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia não ter em França, onde vivia, nem interesses, nem lar; - e era realmente como a deusa que elle ideára, sem contactos anteriores com a terra, descida da sua nuvem d'oiro. para vir ter alli, n'aquelle andar alugado da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.
Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham falado d'affeições. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que
tambem tinha fé n'essas beilas uniões, todas d'estima, rodas de razão comtanto que se lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso perfumava-as d'um grande encanto - e não lhes diminuia a sinceridade. E, sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do bordado e com lentos sorrisos, ficára subtilmente estabelecido que entre elles só deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de suavidade e sem tormentos.
Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas interessantes, ou tornadas interessantes pela graça da sua pessoa; comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente córado, baixar-se, com a lenta attracção d'uma caricia, sobre as flôres que lhe trazia; comtanto que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava seguindo sympathicamente através do seu dia, mal elle deixava aquella adorada saia de reps vermelho – o seu coração estava satisfeito, esplendidamente.
Não pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'intenção casta, era o caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braços ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomára ao vêr-se de repente admittido a uma intimidade que julgára
impenetravel, - os seus desejos desappareciam: longe d'ella, ás vezes, ainda ousavam ir temerariamente até á esperança d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu olhar negro, cahia em devoção, e julgaria um ultraje bestial roçar sequer as prégas do seu vestido.
Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imaginára que houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o céo está limpo; ou em descer de manhã ao jardim para escolher uma rosa mais aberta. Tinha na alma um constante sorriso - que os seus labios repetiam. O marquez achava-lhe o ar baboso e abençoador...
Ás vezes, passeando só no seu quarto, perguntara a si mesmo onde o levaria aquelle grande amor. Não sabia. Tinha diante de si os tres mezes em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais senão elle occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe, separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era largo...
Conservara sempre as suas grandes idéas de trabalho, querendo que no seu dia só houvesse horas nobres, - e que aquellas que não pertenciam ás puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao
seu manuscripto. Mas antes da visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto, n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.
Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de whist. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as bailadas da Filandia; cabido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus longos bigodes tristes.
O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges - que vinha da rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia rodas as manhãs ao predio vêr a
«miss ingleza»: e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da visinha... - A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.