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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E para conversar de Gonçalo, da espera em Craquede, acompanhou aqueles senhores até a ponte da Portela. João Gouveia manquejava, aperreado por umas infames botas novas que nessa manhã estreara. E descansaram um momento no belo banco de pedra que o pai de Gonçalo mandara colocar, quando Governador Civil de Oliveira. Era esse o doce sítio donde se avista Vila-Clara, tão asseada, sempre tão branca, àquela hora toda rosada, desde o vasto convento de Santa Teresa até o muro novo do cemitério no alto, com os seus finos ciprestes.

Para além dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o sol descia, vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, acendendo ainda, em ouro coruscante, as janelas da Vila.

Ao fundo do vale, uma claridade nimbava as altas ruínas de Santa Maria de Craquede, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria sem um rumor, já dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda pássaros cantavam. E na volta da estrada, por cima dos álamos que escondiam o casarão, a velha Torre, mais velha que a Vila e que as ruínas do Mosteiro, e que todos os casais espalhados, erguia o seu esguio miradoiro, envolto no vôo escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente a planície e o sol sobre o mar, como em cada tarde desses mil anos, desde o Conde Ordonho Mendes.

Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vacas lentas. Do lado da Vila, o Padre José Vicente da Finta trotou na sua égua branca, saudou o Sr. Administrador, o amigo Soeiro, abençoando também a chegada do Fidalgo para quem já preparara uma bela cesta da sua uva moscatel. Três caçadores, com uma matilha de coelheiros, atravessaram a estrada, descendo pelo portelo à quelha que contorna o casal do Miranda.

Um silêncio ainda claro, de imenso repouso, tão doce como se descesse do céu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não se movia uma folha, na macia transparência do ar de setembro. Os fumos das lareiras acesas já se escapavam, lentos e leves, dentre a telha rala. Na loja do João ferreiro, adiante da Portela, o clarão da forja avivou, mais vermelho. Um bum-bum de tambor bateu festivamente para o lado dos Bravais, cresceu apressado, marchando - nalgum cabeço, depois lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no vale mais fundo.

João Gouveia, que se recostara no canto do largo assento de pedra, como seu coco sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravais:

- Estou a lembrar aquela passagem do romance do Gonçalo, quando os Ramires se preparampara socorrer as Infantas, andam a reunir a mesnada. É assim, a estas horas da tarde, com tambores; e por sítios... "Na frescura do vale..." Não! "Pelo vale de Craquede..." Também não! Esperem vocês, que eu tenho boa memória... Ah! "E por todo o fresco vale até Santa Maria de Craquede, os atambores mouriscos abafados no arvoredo, tarará! tarará! ou mais vivos nos cerros, ratatá! ratatá! convocavam a mesnada dos Ramires, na doçura da tarde..." É lindo!

Por sobre as costas do Titó que, debruçado, riscava pensativamente com o bengalão a poeira da estrada, Videirinha adiantou para o seu chefe a face estendida, com um sorriso de finura:

- Oh Sr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando os Ramires largam aperseguir o Bastardo! Cá para mim, tem mais poesia. Quando o velho faz aquela jura com a espada e depois lá na Torre, muito devagar, começa a tocar a finados... É de apetite!

À borda do assento, encolhido contra o Titó, para que o Sr. Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Soeiro, com as mãos no cabo do seu guarda-sol, concordou:

- Com certeza! são lances interessantes... Com certeza! Naquela Novela há imaginação rica,muito rica; e há saber, há verdade.

O Titó, que depois de Simão de Nântua, em pequeno, não abrira mais as folhas dum livro, e não lera a Torre de D. Ramires, murmurou, com um risco mais largo na poeira:

- Extraordinário, aquele Gonçalo!

O Videirinha não findara o seu enlevado sorriso:

- Tem muito talento... Ah! o Sr. Doutor tem muito talento.

- Tem muita raça! - exclamou o Titó, levantando a cabeça. - E é o que o salva dos defeitos... Eusou amigo de Gonçalo, e dos firmes. Mas não o escondo, nem a ele... Sobretudo a ele. Muito leviano, muito incoerente... Mas tem a raça que o salva.

- E a bondade, Sr. Antônio Vilalobos! - atalhou docemente Padre Soeiro. - A bondade, sobretudocomo a do Sr. Gonçalo, também salva... Olhe, às vezes há um homem muito sério, muito puro, muito austero, um Catão que nunca cumpriu senão o dever e a lei... E todavia ninguém gosta dele, nem o procura. Por quê? Porque nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que ofendeu mesmo a lei... Mas quê? É amorável, generoso, dedicado, serviçal, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o amam, e não sei mesmo, Deus me perdoe, se Deus também o não prefere...

(continua...)

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